domingo, 11 de junho de 2017

Medicina Narrativa – Aula 2


Narrativa e o binômio Saúde/Doença

Se pensarmos em uma construção de conceitos, quais palavras podem expressar “Saúde” e “Doença”?
Como construir a Narrativa de Doença e de Saúde?
As narrativas convencionais de doença e de saúde incluem: Anamnese, Exame Físico, Diagnóstico e Terapêutica. Eventualmente alguém poderia perguntar se a narrativa não corresponde apenas à anamnese. Em um primeiro momento seria pensado dessa forma, já que a história clínica tradicional corresponde à anamnese. No entanto, os outros itens também possuem cada um sua “narrativa própria”.
O Exame Físico tem uma narrativa que, em um primeiro momento, já vem contada pelo próprio corpo do paciente na maneira como ele se apresenta, por inteiro, não apenas um corpo biológico, mas também um corpo com sua dinâmica, seu comportamento, seus trejeitos, sua narrativa social e cultural expressa na roupa que o cobre e em suas atitudes e expressões. Outra narrativa do corpo é aquela do Exame Físico propriamente dito. A apresentação inicial do corpo do paciente já tem em si uma narrativa que “é lida” pelo profissional de saúde através da lente de seu treinamento para esse tipo de leitura. A partir do Exame Físico propriamente dito uma outra narrativa se estabelece, a qual será relatada no prontuário médico, seguindo um determinado padrão de linguagem que tem também seus parâmetros de espaço/tempo, sendo uma reinterpretação, uma releitura daquela história clínica, que vai complementá-la, ou questioná-la.
O Diagnóstico também implica em outra narrativa. O discurso do Diagnóstico é sintetizado, muitas vezes, em um diagnóstico sindrômico, cujas palavras simbolizam, significam uma narrativa construída a partir do conhecimento médico. Ao mesmo tempo o Diagnóstico é uma espécie de Epílogo da narrativa clínica, como que dando um desfecho na somatória das narrativas que o precedem.
A Terapêutica tem uma narrativa que se desdobra em várias partes. Há um discurso inicial a respeito do que consta em protocolos, manuais, consensos adequados aos diagnósticos obtidos. Mas segue-se o caráter de singularidade do próprio paciente, na medida em que a terapêutica padronizada precisa ser adaptada às condições individuais do paciente. Segue-se ainda uma outra parte que é a terapêutica cotidiana propriamente dita, que diz respeito ao dia a dia da ingesta ou aplicação de medicamentos.
Vemos então que a própria Medicina ou ainda os Cuidados da Saúde convencionais têm já sua narrativa, se nós atentarmos para isso. A prática da Saúde muito automatizada ou grandemente imbuída de tecnologia fez que se perdesse o caráter narrativo desse campo de atuação. A Medicina Narrativa vem resgatar, renovar e adaptar a novas instâncias as narrativas já presentes nas práticas convencionais. 
Além disso, o recurso a outras fontes de conhecimento e de outras narrativas pode acrescentar novos elementos a esse estudo e essa prática. Assim, Ciências Humanas e mesmo as assim chamadas Ciências Exatas podem acrescentar novos elementos narrativos ao âmbito Saúde/Doença. Também aspectos culturais os mais diversos podem trazer elementos enriquecedores para a Medicina Narrativa.
Além de todos esses fatores é importante relembrarmos os precedentes da Medicina Narrativa que vieram de estudos de “Literatura e Medicina” que chamaram a atenção de Dra. Rita Charon para as pontes existentes entre esses dois campos. Assim ela se expressou a respeito da criação do nome desse campo: “O nome ‘Medicina Narrativa’ veio à mim como um termo único para significar uma prática clínica configurada pela teoria e prática de ler, escrever, contar e receber histórias”. 
Outro aspecto interessante é assinalarmos que o que pode ser chamado como “Medicina Baseada em Narrativa” faz interfaces com a consagrada “Medicina Baseada em Evidências” (ver, por exemplo, artigo de Kalitzkus e Mathiessen de 2009).
A própria Medicina Baseada em Evidências tem uma janela aberta a aspectos narrativos. Conforme vemos abaixo no diagrama (Cochrane.org), a prática da Medicina Baseada em Evidências tem três aspectos que se interseccionam: as melhores evidências científicas, a capacidade clínica do profissional, os valores e expectativas do paciente.
               
Conforme a figura abaixo do British Medical Journal, outras palavras para abordar os mesmos três aspectos são: evidência científica relevante, julgamento clínico e valores e preferências do paciente.

Conforme vimos em ambos os quadros há espaços para a Medicina Baseada em Narrativa fazer interconexões com a Medicina Baseada em Evidências. Das três seções a que tem mais possibilidade de dar espaço à narrativa corresponde a “valores e preferências do paciente”. Neste campo, a abertura para que a relação profissional/paciente possa ser alimentada pela prática narrativa é notável. Também o campo do “julgamento clínico” pode se valer de prática narrativa que aprimore seu procedimento.
Agora, para aprofundarmos a discussão a respeito de Saúde/Doença, vamos abordar um tema que temos repetido periodicamente em vários cursos que é o “Conceito Ampliado de Saúde”. Para isso, vamos olhar o conceito de saúde a partir da tradição ocidental.
Primeiramente entre os Gregos.
Para Pitágoras (570-495 a.C.) e pitagóricos, para Hipócrates (460-370 a.C.) e seus seguidores, Saúde é o EQUILÍBRIO entre os humores do corpo (sangue, fleugma, bile negra, bile amarela) e entre os elementos da natureza (fogo, terra, ar, água).
Assim, os tratamentos que prescreviam eram: dietas, exercícios, meditação, música, etc.
Entre os Romanos, ao mesmo tempo em que se manteve a influência dessa tradição, atingindo Galeno, entre outros, surgiu um conceito de saúde que se sintetizou em uma frase proferida pelo poeta Juvenal no século I d.C.: “Mens sana in corpore sano”. Ou seja, mente sã em corpo são. Esta noção repete o conceito Grego, mas inserindo a ideia de mente e de corpo, indicando já uma divisão que séculos depois será atribuída a Descartes.
Sem querer entrar em outros tantos detalhes históricos, pois esse não é o escopo principal desta aula, vamos dar um salto mais adiante à transição do século XVII para o século XVIII.
Antes disso vamos mencionar uma frase bastante tradicional de origens que remontam a Hipócrates e os hipocráticos: “Não existem doenças, existem doentes”. Essa frase já foi atribuída a diversos autores, mas o fato é que ela acaba se reportando a Hipócrates e os hipocráticos, na medida em que se buscam seus precursores.
No século XVIII, Johann Peter Frank (1745-1821) deu início à Saúde Pública, no cuidado à população.
No início do século XIX, Bichat (1771-1802) lançou a ideia de “sistemas” em relação às partes do organismo.
Ainda no mesmo século Claude Bernard (1813-1878) criou a conceituação de meio interno e meio externo em relação aos seres vivos.
Rudolph Virchow (1821-1902) nesse mesmo século lançou a ideia de patologia celular, deslocando a noção de doença para as células do organismo.  
No século XIX Louis Pasteur (1822-1895) descobriu a correlação entre doenças e microrganismos, trazendo todo um novo paradigma para a medicina. 
Já no século XX, Walter Bradford Cannon (1871-1945) deu configuração ao conceito de Homeostase como equilíbrio entre meio interno e meio externo iniciado por Claude Bernard.
Também no século XX, Hans Selye (1907-1982) lançou a ideia de “stress”.
Temos também neste século: “A Saúde é a vida no silêncio dos órgãos”. Famosa frase de René Leriche (1879-1955).
Em meio ao caminhar desses conceitos, o processo de entendimento da saúde mental resumidamente caminhou de Pinel (1745-1826) a Freud (1856-1939) e Kraepelin (1856-1926), em um percurso entre conceituações mais ou menos organicistas.
Apesar disso tudo: “Mens sana in corpore sano” continua sendo uma maneira simples de expressar saúde, ao mesmo tempo em que mantém certa dicotomia.
Finalmente, em 1948, a Organização Mundial de Saúde lançou o Conceito de Saúde que tem sua aplicação geral como: “pleno BEM-ESTAR físico, mental e social”. Ou seja, já se tinha então a noção de que saúde não é apenas ausência de doença. Vê-se nessa conceituação a ideia de saúde como algo associado a “bem estar”. A situação de diversos traumas ligados às duas grandes guerras conduziu a uma política de promoção de “bem estar” às populações, de modo que a ideia de saúde se amplia de bem estar físico e mental (mens sana in corpore sano) para também uma ideia de “bem estar social”, o que implica a noção do coletivo, em que se incluem práticas de prevenção, como, por exemplo, vacinação, e de promoção de saúde pública.
No fim do século XX, o conceito de saúde da OMS torna-se insuficiente para compreender todas as condições de “bem-estar” e de “mal-estar” que surgem a partir dos anos 1960, quando, juntamente com os movimentos de contracultura, novos caminhos são propostos para configurar essas ideias, incluindo conceitos provindos de culturas orientais e indígenas. Portanto, buscaram-se formulações do conceito de saúde que pudessem abranger outras condições.
Na Conferência de Ottawa da OMS (1986) surgiu uma ideia de PROMOÇÃO DA SAÚDE, inserindo variáveis CULTURAIS no processo saúde/doença, bem como nessa ideia de promoção. A partir dessas ideias, também se procurou estudar as correlações entre saúde/doença e espiritualidade.
Assim, tem-se então um Conceito Ampliado de Saúde que contempla aspectos culturais ligados ao binômio saúde/doença.
No ano de 2001, elaboramos uma forma de trabalhar o Conceito Ampliado de Saúde a partir de um quadro do filósofo Ken Wilber, no livro “The Eye of Spirit”, onde ele apresenta um quadro a respeito dos campos do conhecimento humano. Esse quadro deu-nos a ideia de substituir os campos do conhecimento por campos de saúde, mantendo as colunas como interior e exterior e as linhas como individual e coletivo. Na intersecção entre esses diferentes campos têm-se então para o individual exterior o campo físico (ou biológico) da saúde; na intersecção entre interior e individual, têm-se a saúde psíquica (ou mental); no quadro equivalente ao coletivo exterior têm-se o campo “social” da saúde; na intersecção entre coletivo e interior têm-se o campo “cultural”. Temos então para o campo “físico” a dimensão “objetiva”; no campo “psíquico”, a dimensão “subjetiva”; no campo “social”, a dimensão “interobjetiva”, no campo “cultural” a dimensão “intersubjetiva”. Mais frequentemente existe a tendência de reducionismo da saúde/doença do indivíduo ao campo “físico”. No entanto, bem estar e mal estar podem provir de qualquer de um dos campos e pode influir os outros três no sentido de melhorar ou de piorar.

Ainda pode-se considerar a possibilidade de um quinto campo decorrente de todos os outros quatro que pode ser chamado de “campo ambiental”, onde se entende meio ambiente como o que diz respeito tanto ao interior como ao exterior dos indivíduos e das comunidades, bem como a ideia de “ambiência”, onde o meio ambiente ecológico encontra intersecção com o ambiente cultural.

A Medicina Narrativa se estabeleceu concomitantemente à ampliação do conceito de saúde na transição do século XX para o XXI.
Além disso, a construção e o aprimoramento COGNITIVO dos profissionais, a partir de narrativas, permitem a percepção de uma visão ampliada de saúde.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Parte 2 da aula 1: Curso "Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde"


Conforme a Profa. Dra. Rita Charon, da Universidade de Columbia, a Medicina Narrativa é uma medicina praticada com competência narrativa para reconhecer, absorver, interpretar e ser tocado pelas histórias (estórias) de doenças (e de doentes).
A Medicina Narrativa busca:
-          Aumentar a capacidade de percepção clínica.
-          Levar a um cuidado mais humano, mais ético e mais efetivo.
A Medicina Narrativa provém dos seguintes campos:
- Humanidades e Medicina
- Cuidados Primários em Medicina
- Narratologia contemporânea (que é o estudo de estruturas e de elementos das narrativas)
- Estudos de relação médico-paciente.
- Literatura e Medicina
- Cuidado centrado no vínculo indivíduo/comunidade/profissional da saúde
O estudo da Medicina diz respeito ao estudo do ser humano. Tudo o que se estuda em Medicina, e além dela, vai, gradativamente, configurando o que se entende por “ser humano”.
Profissionais da saúde precisam de meios para:
-          Singularizar o cuidado ao paciente
-          Reconhecer/perceber a ética profissional e os deveres pessoais ao doente
-          Produzir “correlações terapêuticas” com pacientes, entre profissionais e com o público.
Hoje em dia, a falta de singularidade, humildade, responsabilidade, empatia pode ser provida, em parte, pela Medicina Narrativa.
A atividade da medicina narrativa é compatível com uma prática multiprofissional.
O que é multiprofissional pode ser multidisciplinar ou interdisciplinar. Cada um desses conceitos tem suas particularidades e tem suas intersecções.
Multidisciplinaridade: é o que já está presente desde Aristóteles. Corresponde a cada área do Conhecimento com sua linguagem e seu método.
Interdisciplinaridade: permite uma permuta de linguagens e de métodos, ou ainda a adoção da mesma linguagem e método por diferentes campos do Conhecimento.
Transdisciplinaridade: diz respeito mais a uma “metalinguagem” e “metamétodos”, ou seja, transversaliza diferentes campos do Conhecimento, mas ao mesmo tempo sem o tipo de envolvimento da interdisciplinaridade, já que aborda “linguagem e método” do “lado de fora”, ou seja sem submeter-se às condições e normas de linguagem e método dos campos. A transdisciplinaridade também inclui “culturalidade”, ou seja, admite no processo de Conhecimento as variáveis culturais. Também a transdisciplinaridade, por suas características, concilia paradoxos.
São 3 os pilares da transdisciplinaridade:
1 –Níveis de Realidade.
Deve-se admitir que a abordagem do Real pode acontecer em diferentes níveis de realidade, de modo que em cada nível há condições próprias. Não se pode reduzir todo o fenômeno a apenas um nível de realidade. Assim, este pilar também propõe uma atitude de “anti-reducionismo”. Se, por exemplo, levarmos para o âmbito do ser humano, podemos ver que “ser humano” não se reduz ao nível da realidade biológica, mas há outros níveis de realidade, como cultural, social, entre outros, que vão compor a realidade do indivíduo.
2 – Complexidade.
A Complexidade também é anti-reducionista.
Uma forma de entender a complexidade é a frase:      
“O todo é mais do que a soma das partes”.  Assim, mesmo que se juntem todas as partes não se tem um todo. Isso porque o todo implica em alguma coisa a mais do que apenas se ter as partes. Passa a estar presente também o vínculo entre as partes, os fatores que unem as partes, a energia, os desdobramentos provenientes da existência desse todo que articula essas partes.                  
3 – Terceiro incluído.
O terceiro incluído segue uma lógica diferente do “terceiro excluído”. Neste, em uma configuração lógica onde A e B não se correlacionam, o terceiro excluído corresponde a um não-A e não-B.
Já no terceiro incluído não-A e não-B pode implicar em um C que possa harmonizar não-A e não-B em convivência simultânea. Os autores dão como exemplo dessa situação a conceituação física quântica de “quanta”. Isso acaba resolvendo a dicotomia entre as possibilidades de um fóton ser partícula ou de ser onda. No quanta essas duas possibilidades convivem em um nível de realidade acima de ambos. Assim admite paradoxos. Vai além dos pares de opostos.
Como uma espécie de quarto pilar temos a culturalidade já citada.
A Medicina Narrativa é:
-          Um reforço à anamnese tradicional
-          Uma recuperação do valor dessa anamnese no século 21.
-          Educa uma escuta focada e o olho clínico que direcionam as decisões baseadas em evidência.
Protocolos médicos são boas ferramentas em mãos de quem raciocina a respeito de sua aplicação, adapta-os à singularidade do paciente e de sua cultura.
Isso é possível a partir de uma boa anamnese, e do exercício narrativo.
A Medicina Narrativa pode aprimorar no profissional de saúde a percepção de quando e quanto deve acrescentar de dados à anamnese, permitindo conhecer aspectos da vida do paciente que podem interferir no processo saúde/doença, e usualmente passam despercebidos. 

sábado, 27 de maio de 2017

Aula 1 do Curso "Medicina Narrativa: Processo Interdisciplinar em Saúde" Parte 1


     Este curso está inserido no Setor de Neuro-Humanidades da Disciplina de Neurologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.
    O Setor de Neuro-Humanidades trabalha com as intersecções entre Neurociências e Ciências Humanas. No sentido amplo do termo, Neurociências, no plural, é uma designação que engloba os diversos campos de estudo com o prefixo “neuro”, além da Neurociência, no singular, propriamente dita, que se refere mais propriamente à Ciência Básica de Pesquisa assim denominada.
     Então, Neuro-Humanidades diz respeito a interfaces entre áreas “Neuro” e os campos de estudo como Filosofia, História, Sociologia, Antropologia, Letras, Literatura, etc. Portanto, trata-se de um campo “interdisciplinar”.
    Neste campo, trabalhamos com algumas ideias básicas que nos orientam. Para nós não existe processo ou evento humano que seja “a-histórico” ou “a-psicológico”, ou seja, não se pode desvencilhar qualquer campo do Conhecimento da História e da Psicologia. A história humana e a psique humana estão em qualquer processo humano. Afirma-se isso porque, eventualmente pensa-se que a Ciência (principalmente as Hard Sciences) seria algo que se faria por si, acumulando conhecimentos científicos, independentemente da história humana e da psique humana, sem depender de outros fatores que não seus próprios parâmetros.
     Também em Neuro-Humanidades colocamos que não temos nem a única, nem a última palavra, sobre qualquer coisa. Os diversos campos de Conhecimento podem usar os mesmos termos para significar coisas diferentes dentro de linguagem e contextos próprios da cada um desses campos. Deve-se situar o contexto e outros fatores dentro dos quais se esteja inserindo determinado termo ou conceito. Além disso, frisamos que não temos todas as respostas. Se ao fim de determinado estudo chegarmos a formular alguma pergunta, já pode ser um avanço em nosso estudo, mais do que a própria resposta. O filósofo Henri Bergson dizia que quando formularmos nossos próprios problemas, seremos livres. Ele quis dizer que, em geral, somos treinados para trazer soluções a problemas que já nos chegaram com esse título, “problema”, e já assim estruturados. Precisaríamos aprender a verificar se realmente se trata de um problema e estruturar a configuração do problema. Deveríamos perguntar: 1 - realmente existe esse problema? 2 - Se existe, qual seu contexto? 3 - qual a real dimensão do problema? Assim, a formulação de perguntas pode já significar um entendimento do processo estudado. Ao se estudar algum assunto, não necessariamente deve-se chegar a todas as respostas, mas eventualmente descobrir ou propor caminhos.
     Em Neuro-Humanidades interessa-nos mais os vínculos, as ligações, os processos entre as coisas, do que as próprias coisas. Mais os processos do que os fatos. Em nossa cultura temos forte influência do Positivismo do século XIX. A ciência positivista baseia-se na constatação de fatos e que esses fatos seriam indiscutíveis e que se caminha de comprovação em comprovação crescente na acumulação de conhecimento. Mas, a formação atual do Conhecimento, principalmente do Conhecimento Médico vem a partir da Medicina Baseada em Evidências, evidências essas que não são necessariamente fatos, mas decorrências de estudos diversos associados a Bioestatística e Epidemiologia. Na interface de Neuro e Humanidades o foco mais nos processos do que nos fatos procura estudar elementos menos focalizados nos estudos habituais.
     Finalmente, a “linguagem”. Para nós a linguagem é fundamental, não só a linguagem verbal, mas todas as formas de linguagem. No entanto, a linguagem verbal assume importância singular na medida em que com ela se constrói toda forma de Conhecimento, incluindo o conhecimento “Neuro”. A linguagem precede até mesmo a noção de conceituações neurológicas básicas. Antes vem a linguagem, depois vêm os conceitos. “Ser Humano, Linguagem, Cultura” são três elementos associados desde o início de sua existência. Cada um desses três fatores está fortemente e indissoluvelmente ligado aos outros dois.  Comer, beber, dormir, procriar são atividades básicas das diferentes espécies animais; mas no ser humano cada um desses fatores está sempre marcado pela Cultura, por elementos culturais; a Cultura que é fruto da convivência comunitária de seres humanos desde os primórdios em que se possa referir a “ser humano”. A conceituação de “ser humano” sempre implica em “comunidade”, de onde provém “a cultura”. Associada a ambos está a “linguagem”.
     Assim, a linguagem é a principal ferramenta, mas também pode ser obstáculo ao Conhecimento. Sua capacidade, suas possibilidades são também seus limites.
     Para ilustrar isso podemos lembrar uma passagem de Thomas Kuhn em sua coletânea póstuma “Depois da Estrutura”. Ele, que tinha formação em Física, ao estudar Aristóteles, achou estranho o conceito aristotélico de “movimento”. Em primeiro momento achou que Aristóteles nada entendia de Física. Mas depois ele veio a entender que “movimento” para Aristóteles tinha outro sentido: para ele, por exemplo, a metamorfose na natureza, de larva em borboleta, era um “movimento”. Ou seja, a ideia de movimento englobava também formas de transformação. A partir daí, Kuhn passou a respeitar Aristóteles e esse foi um dos elementos que o levaram a configurar sua ideia de “incomensurabilidade de paradigmas”, na medida em que eles usem diferentes linguagens e métodos.
     Outro aspecto sobre a linguagem diz respeito à importância da metáfora para o Conhecimento. A metáfora permite a passagem de palavras entre diferentes campos do Conhecimento, mas com sentidos associados, não exatamente os mesmos de seu campo de origem. Podemos pensar, por exemplo, nas diversas passagens da palavra “célula” desde sua origem como “pequena cela” quando vista pela primeira vez pelo microscópio por Robert Hooke, que associou o que via a “pequenos cômodos” que chamou então de células. Daí para diante esse termo percorre diversos campos do Conhecimento e mesmo da linguagem coloquial.
     Tendo visto esta introdução a respeito de alguns conceitos básicos para os estudos em Neuro-Humanidades, passemos então a falar da Medicina Narrativa como uma prática interdisciplinar na área da Saúde.
     Ao falarmos de “interdisciplinaridade” devemos entender esse termo. Ele costuma ser estudado com os termos Multidisciplinaridade e Transdisciplinaridade. Multidisciplinaridade é uma associação de disciplinas que segue um modelo que iniciou-se com Aristóteles, embora ele mesmo não usasse esse termo; essa é uma conceituação que surge no século XX, a respeito do Conhecimento no sentido amplo do termo. Na Multidisciplinaridade cada disciplina fica com seu método e sua linguagem, havendo apenas algum contato entre disciplinas. É o modelo tradicional, convencional da maioria das escolas. Já a interdisciplinaridade implica em uma permuta de linguagens e métodos. A transdisciplinaridade não é um degrau acima de multi e interdisciplinaridade. A transdisciplinaridade transversaliza as outras duas formas de associação de disciplinas, de modo que trabalha mais com uma espécie de metalinguagem e de “metamétodo”; na transdisciplinaridade a cultura, ou a culturalidade sempre é levada em consideração.
     Visto isso, afirmar que a Medicina Narrativa é uma área interdisciplinar implica em que permite a permuta de linguagens e métodos entre diferentes áreas do Conhecimento ligadas à saúde. Ao falarmos área da Saúde também podemos ampliar essa designação para saúde/doença, na medida em que ambas têm sua fundamentação de forma mútua, embora não sejam exatamente equivalentes.
    A ideia de saúde/doença surgiu para o ser humano a partir da constituição do próprio “ser humano”, naqueles primórdios já referidos, em que se tem ser humano, linguagem e cultura surgindo associados. Dessa forma, a percepção de “sofrimento e dor” passou a ser algo presente a partir do momento em que se tem “ser humano no mundo”. Pode-se eventualmente alegar que os animais também sofrem; o que é certo. Mas, mesmo esta conceituação vem do ser humano que pensa a esse respeito. Assim a percepção e elaboração de alguma coisa que passa a ser nomeada como “sofrimento ou dor” é algo próprio do ser humano. “Nomear” é algo próprio do ser humano. Assim também a verbalização sobre o binômio saúde/doença.
     Frisamos que sempre ensinamos que “não existem doenças, existem doentes”. Isso significa que doenças são resultado da abstração médica a partir de sinais e sintomas. Sinais e sintomas similares podem significar uma doença em um século e outra doença em outro, porque ambas são construídas a partir do contexto histórico presente de cada uma.
     Assim como o ser humano “nomeia” com sua linguagem verbal, mas também a partir da percepção de outras linguagens, ele discorre verbalmente a respeito dos eventos que o cercam. Usualmente e inicialmente a partir de noções de espaço e de tempo. Sempre o ser humano narra sucessivamente e comparativamente os eventos de sua vida e de sua comunidade desde os tempos primordiais. Assim se constituíram as narrativas. Entre elas, as narrativas das doenças. Talvez, paradoxalmente, as narrativas de doenças tenham precedido as narrativas de saúde, já que na medicina as doenças são abstrações. No entanto, em tempos primordiais as “doenças-narrativas” tinham certos significados dentro do mundo cotidiano dos seres humanos de modo algo diferente da conceituação científica de doença.
     Deixemos este debate para outra oportunidade. Agora comentemos um pouco sobre Medicina Narrativa.
      O termo Medicina Narrativa foi criado pela Profa. Dra. Rita Charon, professora de Medicina na Columbia University em Nova York, no ano 2000. A criação desse termo veio após longa vivência como médica e professora, bem como a partir de contato com área da Literatura, onde fez Doutorado. No ano de 2009 ela teve aprovado o programa de Mestrado em Medicina Narrativa na mesma Universidade.  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Curso: "Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde"


Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde.

Curso de Extensão

Ementa:

A Medicina Narrativa corresponde a uma abordagem da questão saúde-doença do ponto de vista da narrativa, da história do doente em seu sentido mais amplo, compreendendo não apenas aspectos biológicos, mas também sociais e culturais. Nesse sentido, uma das ferramentas da medicina narrativa é a Literatura, além do estudo da linguagem. Esse processo pode aprimorar a percepção clínica, bem como fornecer mais elementos para a equipe multiprofissional que atua conjuntamente, seja no sentido diagnóstico como terapêutico.

Responsável: Prof. Dr. Afonso Carlos Neves
     Prof. Dr. Afonso Carlos Neves – Professor Afiliado da Disciplina de Neurologia da Unifesp, Coordenador do Setor de Neuro-Humanidades da Disciplina de Neurologia. Mestrado e Doutorado em Neurologia (Unifesp), Pós Doutorado em Neurologia (UCSF) e Doutorado em Historia Social da Ciência (USP).

Público Alvo:
- Todos os interessados que estejam cursando nível superior ou já tenham concluído.
- Disciplina optativa eletiva para alunos da Unifesp.
- Pós-graduandos.

Carga horária: 36 horas, sendo 16 horas presenciais e 20 horas não presenciais para preparação de seminários relativos a trabalhos com textos literários.  

2 Créditos para Pós-Graduação; 2 créditos para alunos da Unifesp.

Horário:
Quintas-feiras, de 04 de maio a 29 de junho de 2017.
Das 12 às 14 horas.
Local: Anfiteatro Lemos Torres.

Programa:
Aula 1 – 04/05
                Fundamentos da Medicina Narrativa I
Aula 2 – 11/05
               Fundamentos da Medicina Narrativa II
Aula 3 – 18/05
               Fundamentos da Medicina Narrativa III
Aula 4 – 25/05
               Linguagens e Discursos
Aula 5 – 01/06
               História da Educação Médica
Aula 6 – 08/06
              Seminários
Aula 7 – 22/06
              Seminários
Aula 8 – 29/06
             Seminários

Bibliografia:

Charon, Rita – Narrative Medicine – Honoring the stories of Illness. Oxford University Press, 2006.
Mehl-Madrona, Lewis – Healing the mind through the power of story. Bear & Company.
Mehl-Madrona, Lewis – The Use of History and Story in the Healing Process. Bear & Company.
Outras referências a serem citadas em sala de aula referentes a textos literários dos escritores Moacyr Scliar, Mário de Andrade, Lima Barreto, Thomas Mann, A. J. Cronin e outros.


Inscrições em:
https://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Multi, Inter, Transdisciplinaridade – Parte 2


As palavras Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade passaram a circular em ambientes relacionados a estudos do Conhecimento e da Educação principalmente a partir da década de 1990. Tais termos passaram a ser muito utilizados na linguagem cotidiana desses e de outros campos de estudo, de tal modo que acompanharam até mesmo certo modismo nos discursos em torno desses temas e de temas similares.
Cada palavra carrega diversos elementos além do seu significado básico inicial. Esses elementos podem ser tanto racionais quanto emotivos e podem despertar atração ou repulsão dependendo do contexto em que o termo esteja sendo usado, ou seja, dependendo de espaço, tempo e do agrupamento humano que faça uso do termo específico.
Talvez por conta da força do próprio prefixo “multi”, que sinaliza algo próspero, crescente, positivo, progressivo, o termo “multidisciplinar” frequentemente é usado para além de seu significado original. Não queremos dizer com isso que esse uso esteja errado. As palavras têm diversos sinônimos e significados dependendo do ambiente em que estejam sendo usadas. No entanto, tem havido algum engano no uso da palavra “multidisciplinar” por se estar querendo dizer alguma coisa que talvez tenha melhores palavras para descrever, como, por exemplo, “interdisciplinaridade”, ou eventualmente pela descoberta da palavra “multidisciplinaridade” por alguém que tenha certo encanto pela sonoridade e pela aparente praticidade que a palavra pode proporcionar, ou ainda por ser uma palavra que possa engrandecer a atividade ou a pessoa que a aplique, bem como por certa sensação de modernidade ou contemporaneidade ao pronunciar ou escrever “multidisciplinaridade”.
Como multidisciplinaridade reúne o prefixo “multi”, de origem grega e a raiz “disciplina”, de origem latina, os franceses preferem o termo “pluridisciplinaridade”. Na verdade, ambos dizem respeito à mesma coisa.
Com certa frequência alguém diz que “agora aqui já somos multidisciplinares”, ou “agora adotamos a multidisciplinaridade”. Isso pode ser verdade se o local em questão tiver sido apenas “unidisciplinar” anteriormente. Nem sempre é esse o caso.
Embora o uso desse termo tenha começado na segunda metade do século XX, podemos dizer que a multidisciplinaridade tenha começado com Aristóteles. Devemos frisar que o próprio Aristóteles não tinha como se considerar “multidisciplinar”, haja vista ser esse um conceito de nossos tempos. No entanto, na cultura ocidental, ele foi o primeiro que estabeleceu de maneira mais regularizada, ou organizada, a divisão de áreas do Conhecimento. Certamente ele foi precedido por outros que também tinham certa divisão de campos do Conhecimento. Se formos nos reportar aos primórdios mais longevos da humanidade a respeito de quando teria se iniciado a divisão de Conhecimento, iremos até o Período Paleolítico da Pré-História, na assim chamada cultura de “caçador-coletor”, onda já havia uma divisão de trabalho e, portanto de conhecimento entre dois grupos: homens caçadores de animais, mulheres coletoras de materiais vegetais diversos. Essa divisão de trabalho propiciou um gradual aprimoramento de cada um desses grupos na sua própria área de conhecimento, de modo que a partir de certo ponto passaram a ter noção de refinados e detalhados fatores de suas áreas respectivas, incluindo até determinados “segredos” da arte de cada uma dessas áreas. Isso certamente acabou levando a um processo de “iniciação” das pessoas mais jovens, com etapas de aquisição de conhecimento desde a infância e a partir de certa idade com “rituais de passagem”, indicando a possibilidade de prosseguir na aquisição de conhecimento e sua aplicação prática.
Se assim era na Pré-História, mais refinado passa a ser quando o Conhecimento se torna sistematizado e organizado, principalmente a partir dos filósofos, quando falamos de Ocidente, e, de certa forma, culminando com Aristóteles como um organizador algo formal desse Conhecimento. Evidentemente o processo não para por aí. Mas, entre os filósofos anteriores a Aristóteles e ele próprio, podemos propor que ele tenha sido o primeiro a relacionar as áreas do Conhecimento, de modo que sejam similares a aquilo que denominamos “multidisciplinaridade”. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Multi, Inter, Transdisciplinaridade – parte 1


Os termos multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade apareceram no século XX, a partir de reflexões e discussões em torno de conhecimento, educação, estudos, pesquisas, etc. Portanto, podem também ser vistos como ligados à Epistemologia.
Epistemologia é o “estudo do Conhecimento”. Não diz respeito ao conhecimento em si das coisas vistas pelas diversas áreas do conhecimento, também chamadas de “disciplinas”.
O estudo do Conhecimento procura entender como ele se processa, como ele se organiza, quais suas correlações com outros campos de estudo e assim por diante. Sendo assim, esse estudo do Conhecimento tem intersecção com várias áreas.
Quando se fala do processo ou do processamento do Conhecimento hoje em dia, logo se pensa em Neurociências. Pensa-se em como o sistema nervoso “produz” conhecimento, ou processa “conhecimento”. Muitas vezes acha-se que isso basta para entender o Conhecimento, mas não é assim.
O estudo neurocientífico do Conhecimento é importante, pode ser tido como necessário, mas não é suficiente para todo o entendimento a respeito do Conhecimento. Pode-se até diferenciar “processo” de “processamento” do Conhecimento. O “processamento” é mais adequado ao aspecto neurobiológico da formação e produção de Conhecimento. O “processo” já diz respeito a outros aspectos correlacionados a fatores culturais, sociais, filosóficos e seus desdobramentos e correlações.
Também podemos lembrar que conhecimento, educação, estudos, pesquisas, e outros fatores têm similaridades, mas não são sinônimos. No entanto, a abordagem a partir de multi, inter, transdisciplinaridade pode servir a uma compreensão mais ampla a respeito desses temas.
O entendimento de uma área do conhecimento como sendo uma “disciplina” ocorre mais a partir do século XX. Esse nome específico liga-se a uma série de noções que foram, aos poucos, substituindo a antiga ideia de “cátedra” para uma área do conhecimento ou para uma seção específica dentro da universidade, ou ainda para o que se configurou a partir da segunda metade do século XIX e consagrou-se no século XX como “especialidade” em certos campos.
A preocupação dos estudiosos de como se correlacionam as diversas disciplinas iniciou-se na década de 1920, mas ganhou mais corpo a partir da década de 1960. Cada um desses momentos tem suas peculiaridades históricas. Nas duas últimas décadas do século XX o discurso a respeito dos três temas passou a ser mais frequente, com publicações, debates, e polêmicas. O século XXI se presta mais a uma melhor circulação e aplicação de tais termos.
Deve-se frisar que as três palavras não caracterizam três degraus de uma mesma escada. Cada uma das três instâncias têm aspectos que as particularizam, de modo que também não se fala em alguma coisa que caminha de um nível menor para um nível maior. Também não diz respeito a menor ou maior abrangência. Mas pode-se dizer que são níveis diferentes de abordagem do Conhecimento ou de como as áreas do Conhecimento se articulam.

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre o artigo “Padrão Xangai” do professor José Antonio Segatto e a crise nas universidades


Foi publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, em 18 de Junho de 2015, o artigo do Professor Titular de Sociologia da Unesp José Antonio Segatto intitulado “Padrão Xangai”.
Ele inicia citando o entusiasmo dos meios acadêmicos com o fato de cinco ou seis universidades brasileiras aparecerem nos rankings internacionais listadas entre centenas de melhores universidades no mundo.
Em seguida, observa que pela busca de ascensão nos rankings, as universidades públicas têm procurado adotar as exigências e o padrão para “produção, reprodução, gestão e difusão científicas”, disseminados há décadas pelas universidades americanas e “reciclados” no Oriente, em Xangai, Hong Kong, Jacarta, Seul, Taipé, etc. Esse padrão, com seu clímax nas décadas de 1980 e 1990, baseia-se em “mercantilização do Trabalho intelectual e científico, a competitividade, a produtividade, o empreendedorismo, a objetividade, a racionalidade instrumental e a internacionalização, entre outros elementos”.
Refere então que esse padrão tem sido lentamente adotado, inclusive como contraponto ao corporativismo e fraca produção acadêmica e científica do corpo docente, e como reação do conservadorismo às teorias críticas tidas como ideológicas e especulativas. Considera então que seria o desfecho de um processo de americanização das universidades brasileiras iniciado nos anos 1960.
Assim, conforme o padrão Xangai, o trabalho intelectual e científico passaria a buscar a maximização de resultados, o índice de desempenhos (performance), indicadores de produtividade e difusão (impacto). Desse modo, a tríade tradicional acadêmica – ensino, pesquisa e extensão – foi sendo substituído por competividade, produtividade, empreendedorismo, internacionalização.
Podemos acrescentar às palavras do professor Segatto que o estudioso canadense Bill Readings em sua obra “The University in Ruins” (1996) já apontava, de modo similar, essa transformação da Universidade. Da Universidade Moderna, cujo padrão teria sido a Universidade de Berlim, fundada por Wilhelm von Humbolt, em 1810, à Universidade Pós-Moderna, ou como prefere Readings, “Pós-Histórica”. Assim, a universidade moderna, que teria consagrado ensino, pesquisa, etc. (que ele também chama de Universidade da Cultura), ao se tornar pós-moderna teria passado a valorizar a excelência, os resultados, a eficiência (que ele também chama de Universidade da Excelência). Nesse processo de transformação ele considera que ocorreu um esvaziamento do sentido das universidades, passando a terem como finalidade o lucro e fatores similares, diferentemente da formação do indivíduo em si.
Voltemos ao texto do professor Segatto. Pelos fatores citados, a produção, transmissão e aplicação do trabalho científico mudaram de rumo. Desse modo ele cita: 1 – mercantilização da Ciência, com o cientista transformado em businessman, voltado para patentes e copyrights; 2 – eficiência dos docentes e pesquisadores medida por planilhas de controle de resultados e atividades; 3 – relevância dada à publicação de artigos breves e coletivos (segundo ele, milagre de multiplicação de autores) em revistas, coletâneas, anais de congresso, em vez de livros ou pesquisas de maior maturação; 4 – oficialização do inglês para publicações nacionais e internacionais, inclusive pagas; 5 – incentivo à captação de recursos por agências externas à universidade, valendo a pesquisa quanto maior o recurso obtido; 6 – estímulo à hiperespecialização e investigação de micro-objetos e fenômenos que possam ter investigação rápida, devido à exigência de produtividade; instala-se a “compartimentalização disciplinar, o minimalismo explicativo, o efêmero e o descartável”.
O professor Segatto considera então que os volumes de recursos passam a ser colossais, com aumento exponencial da produção científica; são editadas em torno de cinco mil revistas científicas no Brasil. Ele pergunta se esse aumento de investimento e produtividade gera o devido retorno em inovação e relevância científica. Cita então a revista Nature, que em 2014 mencionou que “o desempenho qualitativo é inversamente proporcional aos vultosos gastos e ao abundante quantum gerado”.
O professor conclui então que a produção científica e intelectual passou a estar ligada à autorreprodução de nichos corporativos, e não voltada para os interesses da sociedade, porém para “coletividades ou confrarias de interesses e afinidades particulares”. Ele então pergunta se é esse o padrão científico que queremos para as nossas universidades.
Pode ser que não se concorde com todos os pontos citados pelo professor, como por exemplo, o uso do inglês ou a internacionalização. Mas suas considerações servem para uma reflexão a respeito do que se vê atualmente com uma universidade aparente, desses padrões, e a universidade real que precisa formar indivíduos para a sociedade. O artigo de 2014 da Nature revela a constatação de que o Período Pós-Moderno da História, onde predominava o pragmatismo, a eficiência e os resultados, já passou ou está passando. Vivemos em uma transição ao Pós-pós-moderno, que ainda não sabemos exatamente como será, mas que certamente não se pauta mais pelos paradigmas da segunda metade do século XX.