Leituras do Corpo
Linguagem do corpo, expressão do corpo e menos frequentemente “leitura do corpo” são termos que têm sido usados desde os anos 1960/70 a partir de enfoques inicialmente ligados à contracultura. Desde então, estudos sobre o corpo adquiriram centralidade na cultura ocidental. As Neurociências e a Psicologia trazem novos elementos a esses estudos. O corpo neurológico, identidade e tatuagem, corpo, saúde e sociedade, são temas abordados no curso, tendo como pano de fundo a pandemia do Coronavírus.
*Início das aulas: 23/06/2020
| Inscrições: https://forms.gle/vK8qWBhL7vZhzjnX9
| Valor: R$150,00
| Carga Horária: 10 horas
| Os encontros: Serão 5 terças-feiras, das 12h30 às 14h.
23/06, 30/06, 07/07, 14/07 e 21/07
| Aulas ao vivo à distância através da plataforma Zoom.
| Mais informações e dúvidas: cenpsiedu@gmail.com, (11) 98891-5505, @cenpsiedu (instagram).
| Coordenadores: Prof. Dr. Afonso Carlos Neves e Prof. Dr. João Eduardo Coin de Carvalho
domingo, 21 de junho de 2020
segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Aula 1 do Curso: Medicina Narrativa: Processo Interdisciplinar em Saúde. 2019.
Este curso está
inserido no Setor de Neuro-Humanidades da Disciplina de Neurologia da Escola
Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.
O Setor de
Neuro-Humanidades trabalha com as intersecções entre Neurociências e Ciências
Humanas. No sentido amplo do termo, Neurociências, no plural, é uma designação
que engloba os diversos campos de estudo com o prefixo “neuro”, além da
Neurociência, no singular, propriamente dita, que se refere mais propriamente à
Ciência Básica de Pesquisa assim denominada.
Então,
Neuro-Humanidades diz respeito a interfaces entre áreas “Neuro” e os campos de
estudo como Filosofia, História, Sociologia, Antropologia, Letras, Literatura, Geografia.
Portanto, trata-se de um campo “interdisciplinar”.
Neste campo,
trabalhamos com algumas ideias básicas que nos orientam. Para nós não existe
processo ou evento humano que seja “a-histórico” ou “a-psicológico”, ou seja,
não se pode desvencilhar qualquer campo do Conhecimento da História e da
Psicologia. A história humana e a psique humana estão em qualquer processo
humano. Afirma-se isso porque, eventualmente pensa-se que a Ciência
(principalmente as Hard Sciences) seria algo que se faria por si,
acumulando conhecimentos científicos, independentemente da história humana e da
psique humana, sem depender de outros fatores que não seus próprios parâmetros.
Também em
Neuro-Humanidades colocamos que “não temos nem a única nem a última palavra
sobre qualquer coisa”. Os diversos campos de Conhecimento podem usar os mesmos
termos para significar coisas diferentes dentro de linguagem e contextos
próprios de cada um desses campos. Deve-se situar o contexto e outros fatores
dentro dos quais se esteja inserindo determinado termo ou conceito.
Além disso,
frisamos que não temos todas as respostas. Se ao fim de determinado estudo
chegarmos a formular alguma pergunta, já pode ser um avanço em nosso estudo. O
filósofo Henri Bergson dizia que quando formularmos nossos próprios problemas,
seremos livres. Ele quis dizer que, em geral, somos educados para trazer
soluções a problemas que já nos chegaram com esse título, “problema”, e já
assim estruturados. Precisaríamos aprender a verificar se realmente se trata de
um problema e estruturar a configuração do problema. Assim também as perguntas.
Ao se estudar algum assunto, não necessariamente deve-se chegar a todas as
respostas, mas eventualmente descobrir ou propor caminhos, quais as perguntas a
serem feitas.
Em
Neuro-Humanidades interessa-nos mais os vínculos, as ligações, os processos
entre as coisas, do que as próprias coisas. Mais os processos do que os fatos.
Em nossa cultura temos forte influência do Positivismo do século XIX. A ciência
positivista baseia-se na constatação de fatos e que esses fatos seriam
indiscutíveis e que se caminha de comprovação em comprovação crescente na
acumulação de conhecimento. Mas, a formação atual do Conhecimento,
principalmente do Conhecimento Médico vem a partir da Medicina Baseada em
Evidências, evidências essas que não são necessariamente fatos, mas
decorrências de estudos diversos associados a Bioestatística e Epidemiologia. Na
interface de Neuro e Humanidades, estando focados mais nos processos do que nos
fatos, procuramos estudar elementos menos frequentemente elencados nos estudos
habituais.
Finalmente, a
“linguagem”. Para nós a linguagem é fundamental, não só a linguagem verbal, mas
todas as formas de linguagem. No entanto, a linguagem verbal assume importância
singular, na medida em que com ela se constrói toda forma de Conhecimento, incluindo
o conhecimento “Neuro”. A linguagem precede até mesmo a noção de conceituações
neurológicas básicas. Antes vem a linguagem, depois vêm os conceitos. “Ser
Humano, Linguagem, Cultura” são elementos associados desde o início de sua
existência. Cada um desses três fatores está fortemente e indissoluvelmente
ligado aos outros dois. Comer, beber,
dormir, procriar são atividades básicas das diferentes espécies animais; mas no
ser humano cada um desses fatores está sempre marcado pela Cultura, por elementos
culturais; a Cultura que é fruto da convivência comunitária de seres humanos
desde os primórdios em que se possa referir a “ser humano”. A conceituação de
“ser humano” sempre implica em “comunidade”, de onde provém “a cultura”.
Associada a ambos está a “linguagem”.
Assim, a linguagem
é a principal ferramenta, mas também pode ser obstáculo ao Conhecimento. Sua
capacidade, suas possibilidades são também seus limites.
Para ilustrar isso
podemos lembrar uma passagem de Thomas Kuhn em sua coletânea póstuma “Depois da
Estrutura”. Ele, que tinha formação como físico, ao estudar Aristóteles, achou
estranho o conceito aristotélico de “movimento”. Em primeiro momento achou que
Aristóteles nada entendia de Física. Mas depois ele veio a entender que
“movimento” para Aristóteles tinha outro sentido: para ele, por exemplo, a
metamorfose na natureza, de larva em borboleta, era um “movimento”. Ou seja, a
ideia de movimento englobava também formas de transformação. A partir daí, Kuhn
passou a respeitar Aristóteles e esse foi um dos elementos que o levaram a
configurar sua ideia de “incomensurabilidade de paradigmas”, na medida em que
eles usem diferentes linguagens e métodos.
Outro aspecto
sobre a linguagem diz respeito à importância da metáfora para o Conhecimento. A
metáfora permite a passagem de palavras entre diferentes campos do
Conhecimento, mas com sentidos associados, não exatamente os mesmos de seu
campo de origem. Podemos pensar, por exemplo, nas diversas passagens da palavra
“célula” desde sua origem como “pequena cela” quando vista pela primeira vez
pelo microscópio por Robert Hooke, que associou o que via a “pequenos cômodos”
que chamou então de células. Daí para diante esse termo percorre diversos
campos do Conhecimento e mesmo da linguagem coloquial.
Tendo visto esta
introdução a respeito de alguns conceitos básicos para os estudos em
Neuro-Humanidades, passemos então a falar da Medicina Narrativa como uma
prática interdisciplinar na área da Saúde.
Ao falarmos de
“interdisciplinaridade” devemos entender esse termo. Ele costuma ser estudado
com os termos Multidisciplinaridade e Transdisciplinaridade.
Multidisciplinaridade é uma associação de disciplinas que segue um modelo praticamente
iniciado com Aristóteles, embora ele mesmo não usasse esse termo de “multidisciplinaridade”;
essa é uma conceituação que surge no século XX, a respeito do Conhecimento no
sentido amplo do termo. Na Multidisciplinaridade, cada disciplina fica com seu
método e sua linguagem, havendo apenas algum contato entre disciplinas. É o
modelo tradicional, convencional da maioria das escolas. Já a
interdisciplinaridade implica em uma permuta de linguagens e métodos.
Devemos notar que
a transdisciplinaridade não é um degrau acima de multidisciplinaridade e
interdisciplinaridade. A transdisciplinaridade transversaliza as outras duas
formas de associação de disciplinas, de modo que trabalha mais com uma espécie
de metalinguagem e de “metamétodo”, do que com o próprio discurso intrínseco a
cada área, ou mesmo com o âmago de seus métodos. Na transdisciplinaridade,
também a Cultura, ou a Culturalidade sempre é levada em consideração.
Visto isso,
afirmar que a Medicina Narrativa é uma área interdisciplinar implica em indicar
que ela dá espaço à permuta de linguagens e de métodos entre diferentes áreas
do Conhecimento ligadas à saúde. Ao falarmos área da Saúde também podemos
ampliar essa designação para saúde/doença, na medida em que ambas têm sua
fundamentação de forma mútua, embora não sejam exatamente equivalentes de forma
inversa.
A ideia de
saúde/doença surgiu para o ser humano a partir da constituição do próprio “ser
humano”, naqueles primórdios já referidos, em que há ser humano, linguagem e
cultura surgindo associados. Dessa forma, a percepção de “sofrimento e dor”
passou a ser algo presente, a partir do momento em que se tem “ser humano no
mundo”.
Pode-se
eventualmente alegar que os animais também sofrem; o que é certo. Mas, mesmo
esta conceituação vem do ser humano que pensa a esse respeito. Assim, a
percepção e elaboração de alguma coisa que passe a ser nomeada como “sofrimento
ou dor” é algo próprio do ser humano. “Nomear” é algo próprio do ser humano,
como se lê no Gênesis a determinação para que Adão nomeasse todos os animais.
Esse atributo verbal é bastante próprio do ser humano. Assim também no binômio
saúde/doença temos a presença da linguagem.
Frisamos que sempre ensinamos que “não
existem doenças, existem doentes”. Isso significa que doenças são resultado da
abstração médica a partir de sinais e sintomas. Sinais e sintomas similares
podem significar uma doença em um século e outra doença em outro, porque ambas
são construídas a partir do contexto histórico e do conhecimento do tempo presente
de cada uma.
Assim como o ser
humano “nomeia” com sua linguagem verbal, também a partir da percepção de
outras linguagens, ele discorre “verbalmente” a respeito dos eventos que o
cercam. Isso usualmente, e inicialmente, a partir de noções de espaço e de
tempo. Sempre o ser humano narra sucessivamente e comparativamente os eventos
de sua vida e de sua comunidade desde os tempos primordiais. Desse modo,
configuraram-se as narrativas. Entre elas, as narrativas das doenças. Talvez,
paradoxalmente, as narrativas de doenças tenham precedido as narrativas de
saúde, já que na medicina as noções de doenças são abstrações. No entanto, em
tempos primordiais as “doenças-narrativas” tinham certos significados dentro do
mundo cotidiano dos seres humanos, de um modo razoavelmente diferente da moderna
conceituação científica de doença.
Deixemos este
debate para outra oportunidade. Agora comentemos um pouco sobre Medicina
Narrativa.
O termo Medicina
Narrativa foi criado pela Profa. Dra. Rita Charon, professora de Medicina na Columbia
University em Nova York, no ano 2000. A criação desse termo veio após longa
vivência como médica e professora, bem como a partir de contato com a área da
Literatura, onde fez doutorado. No ano de 2009, ela teve aprovado o programa de
Mestrado em Medicina Narrativa na mesma Universidade.
Um aspecto que devemos
ressaltar inicialmente sobre a Medicina Narrativa são os termos em português História
e “Estória”. “Estória” não é mais aceito em português há décadas.
Mas já foi equivalente aos termos em inglês “history” e “story”. O primeiro
para a história, estudo de como foi o transcorrer dos povos no tempo, com seus
processos sociais, políticos, etc, e o segundo para os contos, os romances, os
enredos. Eventualmente ambos se cruzam, ou se juntam. Com essa diferenciação,
pode-se entender melhor quando estamos tratando, por exemplo, de “estórias” de
um paciente, ou de sua história clínica. Ou ainda em literatura, quando se
trata de história (history) ou de “estória”.
Conforme a Profa.
Dra. Rita Charon, da Universidade de Columbia, a Medicina Narrativa é uma
medicina praticada com competência
narrativa para reconhecer, absorver, interpretar e ser tocado pelas histórias
(estórias) de doenças (e de doentes).
A Medicina Narrativa busca:
- Aumentar a
capacidade de percepção clínica.
- Levar a um
cuidado mais humano, mais ético e mais efetivo.
A Medicina Narrativa provém dos seguintes campos:
- Humanidades e Medicina
- Cuidados Primários em Medicina
- Narratologia contemporânea (que é o estudo de estruturas e de elementos das narrativas)
- Estudos de relação médico-paciente.
- Literatura e Medicina
- Cuidado centrado no vínculo indivíduo/comunidade/profissional da saúde
O estudo da Medicina diz respeito ao estudo do ser humano. Tudo o que se estuda em Medicina, e além dela, vai, gradativamente, configurando o que se
entende por “ser humano”.
Profissionais da saúde precisam de meios para:
- Singularizar
o cuidado ao paciente
- Reconhecer/perceber
a ética profissional e os deveres pessoais ao doente
- Produzir
“correlações terapêuticas” com pacientes, entre profissionais e com o público.
Hoje em dia, a falta de singularidade, humildade, responsabilidade, empatia pode ser provida, em parte, pela Medicina Narrativa.
A atividade da medicina narrativa é compatível com uma prática
multiprofissional.
O que é multiprofissional pode ser
multidisciplinar ou
interdisciplinar. Cada um desses conceitos tem suas particularidades e tem suas
intersecções.
Multidisciplinaridade: é o que
já está presente desde Aristóteles. Corresponde a cada
área do Conhecimento com sua linguagem e seu método.
Interdisciplinaridade: permite
uma permuta de linguagens e de métodos, ou ainda a adoção da mesma linguagem e
método por diferentes campos do Conhecimento.
Transdisciplinaridade: diz respeito mais a uma “metalinguagem” e “metamétodos”, ou seja,
transversaliza diferentes campos do Conhecimento, mas ao mesmo tempo sem o tipo
de envolvimento da interdisciplinaridade, já que aborda “linguagem e método” do
“lado de fora”, ou seja sem submeter-se às condições e normas de linguagem e
método dos campos. A transdisciplinaridade também inclui “culturalidade”, ou seja, admite no
processo de Conhecimento as variáveis culturais. Também a
transdisciplinaridade, por suas características, concilia paradoxos.
São 3 os pilares da transdisciplinaridade:
1 –Níveis de Realidade.
Deve-se admitir que a abordagem do Real pode acontecer em diferentes
níveis de realidade, de modo que em cada nível há condições próprias. Não se
pode reduzir todo o fenômeno a apenas um nível de realidade. Assim, este pilar
também propõe uma atitude de “antirreducionismo”, ou “não
reducionista”. Se, por exemplo, levarmos para o âmbito do ser humano, podemos
ver que “ser humano” não se reduz ao nível da realidade biológica, mas há
outros níveis de realidade, como cultural, social, entre outros, que vão compor
a realidade do indivíduo.
2 – Complexidade.
A Complexidade também é “antirreducionista” ou “não reducionista”.
Uma forma de entender a complexidade é a frase: “O todo é mais do que a
soma das partes”. Assim, mesmo que se
juntem todas as partes não se tem um todo. Isso porque o todo implica em alguma
coisa a mais do que apenas se ter as partes. Passa a estar presente também o
vínculo entre as partes, os fatores que unem as partes, a energia, os
desdobramentos provenientes da existência desse todo que articula essas partes.
3 – Terceiro incluído.
O terceiro incluído segue uma
lógica diferente do “terceiro excluído”. Neste, em uma configuração lógica onde
A e B não se correlacionam, o terceiro excluído corresponde a um “não A” e “não
B”.
Já no terceiro incluído, “não A” e “não B” podem implicar em “um C”, que
possa harmonizar “não A” e “não B” em convivência simultânea. Os autores dão
como exemplo dessa situação a conceituação física quântica de “quantum”. Isso
acaba resolvendo a dicotomia entre as possibilidades de um fóton ser partícula
ou de ser onda. No “quantum” essas duas possibilidades convivem em um nível de
realidade acima de ambos. Assim admite o que é um paradoxo em outra instância. Vai além dos pares de opostos.
Como uma espécie de quarto pilar temos a culturalidade já citada.
Ainda sobre a Medicina Narrativa, pode-se dizer que também é:
- Um reforço
à anamnese tradicional
- Uma
recuperação do valor dessa anamnese no século 21.
- Educação e prática
de uma “escuta focada” e de “um olhar clínico” que direcionam as “decisões
baseadas em evidência”.
Protocolos médicos são boas ferramentas em mãos de quem raciocina a
respeito de sua aplicação, adapta-os “à singularidade do
paciente e de sua cultura”.
Isso é possível a partir de uma boa anamnese, e do exercício narrativo.
A Medicina Narrativa pode aprimorar no profissional de saúde a percepção
de quando e quanto deve acrescentar de dados à anamnese, permitindo conhecer
aspectos da vida do paciente que podem interferir no processo saúde/doença, e
usualmente passam despercebidos.
Além dos diversos profissionais de saúde, em seus aspectos interdisciplinar
e transdisciplinar a Medicina Narrativa contempla espaços e interfaces com
diferentes áreas do Conhecimento.
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Curso de Extensão: Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à Saúde
Medicina Narrativa:
Processo Interdisciplinar no Cuidado à Saúde
Professores
responsáveis pelo curso
Prof. Dr. Afonso Carlos Neves
Prof. Dr. Gilmar Fernandes do Prado
1. Ementa
A Medicina
Narrativa corresponde a uma abordagem da questão saúde-doença do ponto de vista
da narrativa, da história do doente em seu sentido mais amplo, compreendendo
não apenas aspectos biológicos, mas também sociais e culturais. Neste sentido,
uma das ferramentas da medicina narrativa é a literatura, além do estudo da
linguagem.
Há diversas
pesquisas a respeito da correlação entre as práticas narrativas e os estudos de
neurociência, bem como o desenvolvimento neurológico. Pretendemos também
abordar essa questão.
Todo esse
processo pode aprimorar a percepção clínica, bem como fornecer mais elementos
para a equipe multiprofissional que atua conjuntamente, seja no sentido
diagnóstico, como terapêutico.
Inscrições:
http://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos
Inscrições:
http://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos
2. Objetivo
Fornecer noções do uso de
literatura e práticas narrativas a alunos de graduação da área da saúde, bem
como a profissionais da área da saúde e outros interessados.
3. Justificativa
Faz-se mister desenvolver
atividades ligadas à linguagem, literatura geral e narrativas na área da saúde,
haja vista o progressivo processo de desumanização nesse campo.
4. Metodologia
Serão ministradas aulas
teóricas e seminários. Cada seminário será sobre um texto de um livro literário
de autor conhecido. Os alunos apresentarão esse seminário a partir de roteiro
fornecido em aula. Cada grupo de seminário deverá mesclar alunos de graduação
com profissionais já graduados e interessados.
5. Critérios de avaliação
5.1. Presença (mínimo de 75%
de presença)
5.2. Preparação e apresentação
de seminário
6. Programação
Todas as aulas serão ministradas pelo Prof. Dr. Afonso
Carlos Neves
01/10 Fundamentos
da Medicina Narrativa I
08/10 Fundamentos
da Medicina Narrativa II
15/10 Fundamentos
da Medicina Narrativa III
22/10 Neuro-Narrativa
e Neuro-Discurso I
29/10 Neuro-Narrativa
e Neuro Discurso II
05/11 Neuro-Narrativa
e Neuro-Discurso III
12/11 Seminários
19/11 Seminários
26/11 Seminários
7. Estratégias de
divulgação - Publicação nos seguintes sítios eletrônicos:
7.1. Blog Narrativa e Saúde <https://narrativaesaude.blogspot.com/>
7.2. Blog Neuro-humanidades <http://neuro-humanidades.blogspot.com/>
7.3. Twitter do professor responsável <https://twitter.com/afonsocn>
7.4. Facebook do professor responsável <https://pt-br.facebook.com/afonsocarlos.neves.5>
7.5. Página institucional da CAEC-EPM <http://www.unifesp.br/campus/sao/camaraextensao>
8. Bibliografia
Abdounur, O. J. Matemática e Música: o pensamento analógico
na construção de significados. Escrituras Editora, 1999.
Adorno, T. Indústria Cultural e Sociedade. Editora
Paz e Terra, 2010.
Aristóteles. Arte Retórica e Arte Poética. Edições de
Ouro, 1970.
Bauman, Z. Modernidade e Ambivalência. Jorge Zahar
Editor, (1991) 1999.
Bauman, Z. O Mal-estar da pós-modernidade. Jorge Zahar Editor, 1997.
Bennet, M.R. & Hacker, P.M.S. Philosophical Foundations of Neuroscience.
Blackwell Publishing, 2010.
Brian Boyd. On
the origin of stories: evolution, cognition & fiction. Harvard University
Press. 2009.
Canguilhem, G. O normal e o patológico. Forense
Universitária. (1996) 2009.
Charaudeau, P. &
Maingueneau, D. Dicionário de Análise do
Discurso. Editora Contexto, 2008
Charon, Rita. Narrative Medicine - Honoring the stories of Illness. Oxford University Press, 2006.
Duarte, R. (org.). Belo, Sublime e Kant. Editora UFMG, 1998.
Eco, U. A Estrutura Ausente. Editora Perspectiva, 1991.
Eco, U. As Formas do Conteúdo. Editora Perspectiva, 1974.
Eco, U. Tratado Geral de Semiótica. Editora Perspectiva, (1976) 1991.
Edwards, B. Desenhando com o lado direito do cérebro.
Ediouro, 2000.
Foucault, M. A Ordem do Discurso. Edições Loyola,
2009 (1971).
Foucault, M. As palavras e as coisas. Editora Martins
Fontes, (1981) 2002.
Foucault, M. L’archéologie du savoir. Éditions
Gallimard, 1969.
Fourez, G. A Construção das Ciências - Introdução à
Filosofia e à Ética das Ciências. Editora Unesp, (1991) 1995.
Frank, A. W. The Wounded Storyteller - Body, Ilness and Ethics. The University
of Chicago Press, 2013 (1995).
Frascina, F. et al. Modernidade e Modernismo - a pintura
francesa no século XIX. Cosac & Naify Ed. 1998.
Freud, S. O mal-estar na Civilização. Imago Editora, 2002.
Hawkins, A. H. & McEntyre, M. C. Teaching Literature and Medicine. The Modern
Language Association of America, New York, 2000.
Huizinga, J. Homo Ludens. Editora Perspectiva, 2010.
Ianni, O. Enigmas da Modernidade-Mundo. Editora Civilização Brasileira, 2000.
Jourdain, R. Música, Cérebro e Êxtase. Editora Objetiva, 1998.
Kleinmann, A. The Ilness Narratives suffering healing & the Human Condition. Basic
Books, Inc., New York, 1988.
Leão, L. Interlab - Labirintos do Pensamento Contemporâneo. Editora
Iluminuras, 2002.
Mehl-Madrona. Healing the Mind through the Power of Story - The promise of Narrative
Psychiatry. Bear & Company. 2010.
Mehl-Madrona, Lewis. Narrative Medicine - The Use of History and Story in the Healing
Process. Bear & Company. 2007.
Navarro, P (org.). O discurso nos domínios da linguagem e da
história. Editora Claraluz, 2008.
Rossi, P. A Ciência e a Filosofia dos Modernos. Editora Unesp, 1992.
Obs. Para os seminários serão utilizadas
obras literárias de autores diversos: Moacyr Scliar (Cego e amigo Gedeão à beira da estrada), Mário de Andrade (Macunaíma), Lima Barreto (O homem que falava javanês), Thomas Mann
(A montanha mágica), A. J. Cronin (A cidadela), Clarice Lispector (Laços de família), entre outros.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
Neuro-Humanidades
O prefixo “neuro”
tem sido bastante usado nas mais variadas condições, procurando associar o
conhecimento do campo neurológico e de neurociências a outras áreas de estudo.
No caso de
“Neuro-Humanidades” faz-se a correlação entre o campo “Neuro” e as Ciências
Humanas, que também são chamadas de Humanidades. Em relação especificamente a
esta associação pode ser interessante nos remetermos às palavras do
neurocientista e filósofo contemporâneo Henrik Walter:
“A Neurociência tornou-se tão
importante para a Filosofia Contemporânea
quanto foram a Física e a Teoria da Evolução
para a Filosofia Moderna passada”.
E também outro texto de Henrik Walter:
“As questões filosóficas
inevitavelmente aparecem
em certo estágio do trabalho
científico
mesmo que os cientistas envolvidos
prefiram ignorá-las.
Isso é principalmente verdade em
qualquer ciência que investigue o ‘órgão da alma’”.
Na verdade, Neurociências, no sentido amplo
do termo, investiga tópicos clássicos da Filosofia, como: consciência, pensamento, significado
e sentido, linguagem, estética, morte, entre outros.
Na nossa maneira
de entender a correlação entre “neuro” e humanidades” consideramos a
“linguagem” como um elemento, um fator básico a todo conhecimento. “Ser humano,
cultura e linguagem” são três fatores estreitamente ligados e indissociáveis
desde o início da humanidade. A base de todo conhecimento é a linguagem.
Há quem diga que
“os neurotransmissores” são a base de todo o conhecimento. Mas, devemos lembrar
que “neurotransmissor” é um nome dado, dentro da linguagem científica, a
determinadas substâncias que preenchem determinados critérios que também são
determinados por meio da linguagem. Não há como escapar da linguagem como fator
básico do conhecimento.
O conhecimento a
respeito do neurotransmissor é elaborado a partir de pressupostos bioquímicos
que configuram esse neurotransmissor. Se um novo conhecimento físico e
energético do neurotransmissor modificar a maneira de compreendê-lo, já se
estará sob um novo paradigma para o entendimento desse mesmo neurotransmissor.
Talvez ele até ganhe um novo nome. Nessas condições, se estará novamente diante
de toda uma nova linguagem que vai explicar esse novo paradigma. Assim, dizemos:
não há como escapar da linguagem como fator básico do conhecimento.
Em
Neuro-Humanidades também dizemos que não temos nem a única e nem todas as
respostas para as perguntas que aparecerem. Uma mesma pergunta pode ter
diferentes respostas, dependendo do contexto em que ela estiver sendo
formulada. Uma única palavra pode ter vários sentidos, dependendo do contexto
em que ela estiver sendo considerada. Não somos os donos absolutos do uso de
uma palavra. As diversas línguas são muito ricas, incluindo o português, e
assim que também um único conceito pode ter várias palavras, vários nomes,
várias formas de ser explicitado.
De certa forma,
interessa-nos mais aprender a elaborar perguntas e problemas do que ter
resposta para tudo. O filósofo Henry Bergson dizia que “quando nós formularmos
os nossos próprios problemas seremos verdadeiramente livres”. Ele não disse
resolver, mas formular o problema, ou a pergunta, porque estamos habituados a
já receber um problema como problema, seja matemático ou de outra natureza, de
modo que acabamos sendo treinados para apenas acharmos soluções, ficando,
assim, presos a toda uma maneira de pensar. Talvez o dito problema, a nós
trazido, nem seja um real problema em nosso próprio contexto.
Um outro fator
importante em Neuro-Humanidades é que não
há processo humano que seja “a-histórico” ou “a-psicológico”, ou seja, não
há processo humano que não tenha história ou esteja inserido na história
humana, e também não há processo humano que não esteja ligado, determinado e
delimitado pelos elementos psicológicos diversos, incluindo os fatores
emocionais.
Um outro aspecto
também em Neuro-Humanidades é que nos interessam mais os vínculos, as ligações, os processos entre as coisas, do que as
próprias coisas. Mais os processos do que os fatos.
De todas essas
considerações infere-se que elas implicam em reflexões que envolvem multi,
inter e transdisciplinaridade no estudo das correlações entre o “Neuroconhecimento”
e as Ciências Humanas.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
“Neuro-Narrativa e Neuro-Discurso” - Curso de Extensão
A Medicina Narrativa é um novo campo da área da saúde que
procura trabalhar a interface entre literatura e medicina, no sentido de
aprimorar no profissional de saúde a maneira de utilizar a linguagem na relação
profissional-paciente não só nos aspectos ligados à anamnese, mas também no
acolhimento e abordagem inicial e contínua do paciente, bem como nas reflexões
e procedimentos a respeito de medidas terapêuticas a serem adotadas. De maneira
similar, esse processo também pode elaborar a correlação entre profissionais de
saúde.
Noções de neurociência a respeito de cognição permitem
associar a atividade narrativa e suas correlações com o aprimoramento das
capacidades cognitivas, tanto do profissional, como do paciente.
Local: Anfiteatro Lemos Torres.
ATENÇÃO: A DATA INICIAL DO CURSO É 1 DE OUTUBRO!
ATENÇÃO: A DATA INICIAL DO CURSO É 1 DE OUTUBRO!
Horário: segundas-feiras, 12:00 às 14 horas, de 1 de outubro
a 26 de novembro (exceto em 19 de novembro – nesta data não haverá aula).
1/10 – Neuro-Narrativa e Neuro-Discurso” - Introdução
8/10 – Neuro-Narrativa e Neuro-Discurso – aula 1
15/10 – Neuro-Narrativa e Neuro-Discurso – aula 2
22/10 – Neuro-Narrativa e Neuro-Discurso – aula 3
29/10 – Neuro-Discurso do Fenômeno Humano
05/11 – Seminário – Os
seminários serão sobre textos de vários autores.
12/11 – Seminário
26/11 - Seminário
Inscrições:
http://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos
Bibliografia
Abdounur, O. J. – Matemática e Música: o
pensamento analógico na construção de significados. Escrituras Editora, 1999.
Adorno, T. – Indústria Cultural e
Sociedade. Editora Paz e Terra, 2010.
Aristóteles – Arte Retórica e Arte
Poética. Edições de Ouro, 1970.
Boyd, Brian – On The Origin of
Stories – Evolution, Cognition and Fiction. Harvard University Press, 2010.
Bauman, Z. – Modernidade e Ambivalência.
Jorge Zahar Editor, (1991) 1999.
Bauman, Z. – O Mal-estar da
pós-modernidade. Jorge Zahar Editor, 1997.
Bennet,
M.R. & Hacker, P.M.S. – Philosophical Foundations of Neuroscience. Blackwell Publishing, 2010.
Canguilhem, G. – O normal e o patológico.
Forense Universitária, (1996) 2009.
Charaudeau, P. & Maingueneau, D. – Dicionário de Análise do Discurso. Editora Contexto, 2008
Charon, Rita
– Narrative Medicine – Honoring the stories of Illness. Oxford University
Press, 2006.
Duarte,
R. (org.) – Belo, Sublime e Kant. Editora UFMG, 1998.
Eco, U. – As Formas do Conteudo. Editora
Perspectiva, 1974.
Eco, U. – Tratado Geral de Semiótica.
Editora Perspectiva, (1976) 1991.
Eco, U. – A Estrutura Ausente. Editora
Perspectiva, 1991.
Edwards, B. – Desenhando com o lado
direito do cérebro. Ediouro, 2000.
Foucault, M. – L’archéologie du savoir. Éditions
Gallimard, 1969.
Foucault, M. – As palavras e as coisas.
Editora Martins Fontes, (1981) 2002.
Foucault, M. – A Ordem do Discurso.
Edições Loyola, 2009 (1971).
Fourez, G. – A Construção das Ciências –
Introdução à Filosofia e à Ética
das Ciências. Editora Unesp, (1991) 1995.
Frank, A. W. – The
Wounded Storyteller. University of Chicago Press, 1995.
Frascina, F. et al. – Modernidade e
Modernismo – a pintura francesa no século XIX. Cosac & Naify Ed. 1998.
Freud, S. – O mal-estar na Civilização. Imago
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Hawkins, A.
H. & Mc Entyre, M. C. – Teaching Literature and Medicine
Huizinga, J. – Homo Ludens. Editora
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Ianni, O. – Enigmas da Modernidade-Mundo.
Editora Civilização Brasileira, 2000.
Jourdain, R. – Música, Cérebro e Êxtase. Editora
Objetiva, 1998.
Kleinmann,
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healing & the Human Condition.
Leão, L. – Interlab – Labirintos do
Pensamento Contemporâneo. Editora Iluminuras, 2002.
Mehl-Madrona,
Lewis – Healing the mind through the power of story. Bear & Company, 2010.
Mehl-Madrona,
Lewis – Narrative Medicine - The Use of History and Story in the Healing
Process. Bear &
Company, 2007.
Navarro, P (org.) – O discurso nos
domínios da linguagem e da história. Editora Claraluz, 2008.
Rossi, P. – A Ciência e a Filosofia dos
Modernos. Editora Unesp, 1992.
Nos seminários serão usadas obras literárias de autores diversos.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à Saúde. Aula 1 – Parte 2.
A Medicina
Narrativa foi criada, com essa designação oficialmente, pela Profa. Dra. Rita
Charon da Columbia University de New York, no ano 2000, como já foi falado. A
Dra. Charon foi influenciada por seu pai, que era médico na cidade de
Providence, nos Estados Unidos, onde fazia uma medicina do tipo que chamaríamos
aqui de “médico do bairro” ou “médico de família”, num sentido mais
tradicional. Antes de optar pela Medicina, Dra. Charon estudou Biologia e
Educação Infantil na Fordham University, tendo se formado em 1970. De 1971 a
1973 foi professora e ativista pela paz. Cursou Medicina na Harvard University
de 1974 a 1978, sendo que completou a Residência Médica em Medicina Social no
Bronx, em New York. Em 1982 começou a lecionar na Columbia University. Em 1999
concluiu doutorado em Literatura Inglesa. No ano 200 começou o Programa em
Medicina Narrativa. Em 2009 iniciou o Mestrado Lato Senso em Medicina
Narrativa.
Nas palavras da
Dra. Charon, Medicina Narrativa é “Medicina praticada com competência narrativa
para reconhecer, absorver, interpretar e ser tocado pelas histórias
(acrescentamos ‘e estórias’) do adoecer (e acrescentamos ‘e dos doentes’).
Com essa prática,
pretende-se: aumentar a capacidade de
percepção clínica; levar a um cuidado mais humano, mais ético e mais efetivo.
A Medicina
Narrativa veio da confluência de:
- Humanidades e Medicina
- Cuidados Primários em Medicina
- Narratologia contemporânea
(estudo de estruturas e
elementos das narrativas)
- Estudos de relação
médico-paciente.
Além desses fatores, acrescente-se:
- Literatura
e Medicina
- Cuidado
centrado no vínculo indivíduo/comunidade/profissional da saúde
Conforme Dra. Charon:
“O nome
‘Medicina Narrativa’ veio a mim como um termo único para significar uma prática
clínica configurada pela teoria e prática de ler, escrever, contar e receber “estórias”.
Medicina Narrativa multiprofissional:
Profissionais da saúde precisam de
meios para:
- Singularizar
o cuidado ao paciente, não só biologicamente.
- Reconhecer/perceber
a ética profissional e os deveres pessoais ao doente.
- Produzir
“correlações terapêuticas” com os pacientes, entre os
profissionais, com o público. Isso significa compartilhar diagnósticos,
decisões, diretrizes.
Hoje em dia, a falta de
singularidade, humildade, responsabilidade e empatia
...pode ser provida, em parte, pela
Medicina Narrativa.
Medicina Narrativa
Interdisciplinar:
O que é multiprofissional pode ser
multidisciplinar ou interdisciplinar.
Conforme já referido anteriormente, uma forma de abordar a convivência
entre diferentes áreas de saúde, ou disciplinas, é considerá-las dentro de
“multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade”. Esses
conceitos não devem ser confundidos com “multiprofissional”, embora possa haver
concomitância entre esses termos. A atividade multiprofissional pode ser multidisciplinar
ou interdisciplinar. Ambas as formas de convivência têm seus espaços no processo
de conhecimento e de aplicação prática do conhecimento. No sentido buscado pelas
práticas narrativas, a atividade multiprofissional aproxima-se mais do processo
interdisciplinar, na medida em que procura afinar a linguagem entre os
diferentes profissionais. Mas há uma oscilação entre multidisciplinar e
interdisciplinar, o que não significa um problema. Essa oscilação pode ser
colaborar no processo de crescimento da atividade narrativa em interface com a
prática profissional em saúde.
A Medicina Narrativa pode também representar uma recuperação do papel da
anamnese no século 21. O trabalho com as práticas narrativas não significa uma
volta à medicina do século XIX, quando praticamente não havia exames
subsidiários. A Medicina do século 21, com sua tecnologia, pode muito bem se
servir das práticas narrativas, inclusive na própria anamnese, agora atenta a
novos paradigmas e acréscimos ao processo diagnóstico.
Protocolos médicos são boas ferramentas em mãos de quem raciocina a
respeito de sua aplicação, adapta-os à singularidade do paciente e de sua cultura.
Isso é possível a partir de uma boa anamnese, e do exercício narrativo. O uso
do treino narrativo no atendimento em saúde não implica em necessariamente
despender muito mais tempo de atendimento ou de ouvir uma extensa
história/estória do paciente, mas estar atento e aberto à percepção/recepção de
algum dado ou fator que esteja além do convencional e que possa ser importante
no processo saúde/doença/adoecer em questão.
sexta-feira, 9 de março de 2018
Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à Saúde. Aula 1 - Parte 1
Este curso está inserido no Setor de Neuro-Humanidades da
Disciplina de Neurologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal
de São Paulo.
O Setor de Neuro-Humanidades trabalha com as intersecções
entre Neurociências e Ciências Humanas. No sentido amplo do termo,
Neurociências, no plural, é uma designação que engloba os diversos campos de
estudo com o prefixo “neuro”, além da Neurociência, no singular, propriamente
dita, que se refere mais frequentemente à Ciência Básica de Pesquisa assim
denominada.
Então, Neuro-Humanidades diz respeito a interfaces entre
áreas “Neuro” e os campos de estudo como Filosofia, História, Sociologia,
Antropologia, Letras, Literatura, etc. Portanto, trata-se de um campo
“interdisciplinar”.
Neste campo, trabalhamos com algumas ideias básicas que nos
orientam. Quais sejam:
1 - Para nós não existe processo ou evento humano que seja
“a-histórico” ou “a-psicológico”, ou seja, não se pode desvencilhar qualquer
campo do Conhecimento da História e da Psicologia. A história humana e a psique
humana estão em qualquer processo humano. Afirma-se isso porque, eventualmente
pensa-se que a Ciência (principalmente as assim denominadas Hard Sciences) seria algo que se faria
por si, acumulando conhecimentos científicos, independentemente da história
humana e da psique humana, sem depender de outros fatores que não seus próprios
parâmetros.
2- Também em Neuro-Humanidades colocamos que não temos, nem a
única, nem a última palavra sobre qualquer coisa. Os diversos campos de
Conhecimento podem usar os mesmos termos para significar coisas diferentes
dentro de linguagem e contextos próprios da cada um desses campos. Deve-se
situar o contexto e outros fatores dentro dos quais se esteja inserindo
determinado termo ou conceito.
3- Além disso, frisamos que não temos todas as respostas. Se
ao fim de determinado estudo chegarmos a formular alguma pergunta, já pode ser
um avanço em nosso estudo. O filósofo Henri Bergson dizia que quando
formularmos nossos próprios problemas, seremos livres. Ele quis dizer que, em
geral, somos educados para trazer soluções a problemas que já nos chegaram com
esse título, “problema”, e já assim estruturados. Precisaríamos aprender a
verificar se realmente se trata de um problema, e estruturar a configuração do
problema. Assim também as perguntas. Ao se estudar algum assunto, não
necessariamente deve-se chegar a todas as respostas, mas eventualmente
descobrir ou propor caminhos.
4- Em Neuro-Humanidades interessam-nos mais os vínculos, as
ligações, os processos entre as coisas, do que as próprias coisas. Mais os
processos do que os fatos. Em nossa cultura temos forte influência do
Positivismo do século XIX. A ciência positivista baseia-se na constatação de
fatos e que esses fatos seriam indiscutíveis e que se caminha de comprovação em
comprovação crescente na acumulação de conhecimento. Mas, a formação atual do
Conhecimento, principalmente do Conhecimento Médico vem a partir da Medicina
Baseada em Evidências, evidências essas que não são necessariamente fatos, mas
decorrências de estudos diversos associados a Bioestatística e Epidemiologia. Na
interface de Neuro e Humanidades o foco mais nos processos do que nos fatos
procura estudar elementos menos visualizados nos estudos habituais.
5- Finalmente, a “linguagem”. Para nós a linguagem é
fundamental, não só a linguagem verbal, mas todas as formas de linguagem. No
entanto, a linguagem verbal assume importância singular, na medida em que com
ela se constrói toda forma de Conhecimento, incluindo o conhecimento “Neuro”. A
linguagem precede até mesmo a noção de conceituações neurológicas básicas.
Antes vem a linguagem, depois vêm os conceitos. “o Ser Humano, a Linguagem, a Cultura”
são três elementos associados desde o início de sua existência. Cada um desses
três fatores está fortemente e indissoluvelmente ligado aos outros dois. Comer, beber, dormir, procriar são atividades
básicas das diferentes espécies animais; mas no ser humano cada um desses
fatores está sempre marcado pela Cultura, por elementos culturais; a Cultura
que é fruto da convivência comunitária de seres humanos desde os primórdios em
que se possa referir a “ser humano”. A conceituação de “ser humano” sempre
implica em “comunidade”, de onde provém “a cultura”. Associada a ambos está a
“linguagem”.
Assim, a linguagem é a principal ferramenta, mas também pode
ser obstáculo ao Conhecimento. Sua capacidade, suas possibilidades são também
seus limites.
Para ilustrar isso podemos lembrar uma passagem de Thomas
Kuhn em sua coletânea póstuma “Depois da Estrutura”. Ele, que tinha formação
como físico, ao estudar Aristóteles, achou estranho o conceito aristotélico de
“movimento”. Em primeiro momento achou que Aristóteles nada entendia de Física.
Mas depois ele veio a entender que “movimento” para Aristóteles tinha outro sentido:
para ele, por exemplo, a metamorfose na natureza, de larva em borboleta, era um
“movimento”. Ou seja, a ideia de movimento englobava também formas de
transformação. A partir daí, Kuhn passou a respeitar Aristóteles e esse foi um
dos elementos que o levaram a configurar sua ideia de “incomensurabilidade de
paradigmas”, na medida em que eles usem diferentes linguagens e métodos.
Outro aspecto sobre a linguagem diz respeito à importância da
metáfora para o Conhecimento. A metáfora permite a passagem de palavras entre
diferentes campos do Conhecimento, mas com sentidos associados, não exatamente
os mesmos de seu campo de origem. Podemos pensar, por exemplo, nas diversas
passagens da palavra “célula” desde sua origem como “pequena cela” quando vista
pela primeira vez pelo microscópio por Robert Hooke, que associou o que via a “pequenos
cômodos”, ou “pequenas celas” que chamou então de células. Daí para diante esse
termo percorre diversos campos do Conhecimento e mesmo da linguagem coloquial.
Tendo visto esta introdução a respeito de alguns conceitos
básicos para os estudos em Neuro-Humanidades, passemos então a falar da
Medicina Narrativa como uma prática interdisciplinar na área da Saúde.
Ao falarmos de “Interdisciplinaridade” devemos entender esse
termo. Ele costuma ser estudado com os termos Multidisciplinaridade e
Transdisciplinaridade. Multidisciplinaridade é uma associação de disciplinas
que segue um modelo que se iniciou com Aristóteles, embora ele mesmo não usasse
esse termo. Essa é uma conceituação que surge no século XX, a respeito do
Conhecimento no sentido amplo do termo. Na Multidisciplinaridade cada
disciplina fica com seu método e sua linguagem, havendo apenas algum contato
entre disciplinas. É o modelo tradicional, convencional da maioria das escolas.
Já a Interdisciplinaridade implica em uma permuta de linguagens e métodos. A Transdisciplinaridade
não é um degrau acima de Multi e Interdisciplinaridade. A Transdisciplinaridade
transversaliza as outras duas formas de associação de disciplinas, de modo que
trabalha mais com uma espécie de metalinguagem e de “metamétodo”; na Transdisciplinaridade
a Cultura, ou a “Culturalidade” sempre é levada em consideração.
Visto isso, afirmar que a Medicina Narrativa é uma área
interdisciplinar implica em que favorece a permuta de linguagens e métodos
entre diferentes áreas do Conhecimento ligadas à saúde. Ao falarmos área da
Saúde também podemos ampliar essa designação para saúde/doença, na medida em
que ambas têm sua fundamentação de forma mútua, embora não sejam exatamente
equivalentes em sentido oposto mutuamente.
A ideia de saúde/doença surgiu para o ser humano a partir da
constituição do próprio “ser humano”, naqueles primórdios já referidos, em que
se tem Ser Humano, Linguagem e Cultura surgindo associados. Dessa forma, a
percepção de “sofrimento e dor” passou a ser algo presente a partir do momento
em que se tem “Ser Humano no Mundo”. Pode-se eventualmente alegar que os
animais também sofrem; o que é certo. Mas, mesmo esta conceituação vem do ser
humano que pensa a esse respeito. Assim a percepção e elaboração de alguma
coisa que passa a ser nomeada como “sofrimento ou dor” é algo próprio do ser
humano. “Nomear” é algo próprio do ser humano, como já foi determinado a Adão
no Gênesis que nomeasse todos os animais (usamos este exemplo simbólico sem querer-se
referir a quaisquer formas de crença). Esse atributo verbal é bastante próprio
do ser humano. Assim também no binômio saúde/doença.
Frisamos que sempre ensinamos que “não existem doenças,
existem doentes”. Isso significa que doenças são resultado da abstração médica
a partir de sinais e sintomas. Sinais e sintomas similares podem significar uma
doença em um século e outra doença em outro, porque ambas são construídas a
partir do contexto histórico presente de cada uma.
Assim como o ser humano “nomeia” com sua linguagem verbal,
mas também a partir da percepção de outras linguagens, ele discorre verbalmente
a respeito dos eventos que o cercam. Usualmente e inicialmente a partir de
noções de espaço e de tempo. Sempre o ser humano narra sucessivamente e
comparativamente os eventos de sua vida e de sua comunidade desde os tempos
primordiais. Assim se constituíram as narrativas. Entre elas, as narrativas das
doenças. Talvez, paradoxalmente, as narrativas de doenças tenham precedido as
narrativas de saúde, já que na medicina as doenças são abstrações. No entanto,
em tempos primordiais as “doenças-narrativas” tinham certos significados dentro
do mundo cotidiano dos seres humanos de modo algo diferente da conceituação
científica de doença.
Deixemos este debate para outra oportunidade. Agora
comentemos um pouco sobre Medicina Narrativa.
O termo Medicina Narrativa foi criado pela Profa. Dra. Rita
Charon, professora de Medicina na Columbia University em Nova York, no ano
2000. A criação desse termo veio após longa vivência como médica e professora,
bem como a partir de contato com área da Literatura, onde fez Doutorado. No ano
de 2009 ela teve aprovado o programa de Mestrado em Medicina Narrativa na mesma
Universidade.
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