terça-feira, 26 de setembro de 2017
Aula e seminários de 2 de outubro de 2017
Os seminários do Curso "Neuro-Narrativa e Neuro-Discurso" vão ocorrer no Anfiteatro Clóvis Salgado da Unifesp - Campus São Paulo, situado à Rua Botucatu, 862, no andar térreo do Edifício de Ciências Biomédicas. Portanto NÃO serão no Anfiteatro Lemos Torres.
domingo, 9 de julho de 2017
“Neuro-narrativa e Neuro-discurso” – 2017. Curso de Extensão
A Medicina Narrativa é um novo campo da área da saúde que
procura trabalhar a interface entre literatura e medicina, no sentido de
aprimorar no profissional de saúde a maneira de utilizar a linguagem na relação
profissional-paciente não só nos aspectos ligados à anamnese, mas também no
acolhimento e abordagem inicial e contínua do paciente, bem como nas reflexões
e procedimentos a respeito de medidas terapêuticas a serem adotadas.
Noções de neurociência a respeito de cognição permitem
associar a atividade narrativa e suas correlações com o aprimoramento das
capacidades cognitivas, tanto do profissional, como do paciente.
Local: Anfiteatro Lemos Torres (a confirmar)
Horário: segundas-feiras, 12:00 às 14 horas, de 7 de agosto a
9 de outubro (exceto em 4 de setembro – nesta data não haverá aula).
7/08 – Introdução ao Tema
14/08 - Práticas Narrativas em Saúde
22/08 - Linguagem Artística e Linguagem Científica
28/08 – Neuronarrativa 1
11/09 – Neuronarrativa 2
18/09 - Teorias do discurso e cognição
25/09 - seminário
02/10 - seminário
09/10 – seminário
Inscrições:
http://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos
Bibliografia
Abdounur, O. J. – Matemática e Música: o
pensamento analógico na construção de significados. Escrituras Editora, 1999.
Adorno, T. – Indústria Cultural e
Sociedade. Editora Paz e Terra, 2010.
Aristóteles – Arte Retórica e Arte
Poética. Edições de Ouro, 1970.
Bauman, Z. – Modernidade e Ambivalência.
Jorge Zahar Editor, (1991) 1999.
Bauman, Z. – O Mal-estar da
pós-modernidade. Jorge Zahar Editor, 1997.
Bennet,
M.R. & Hacker, P.M.S. – Philosophical Foundations of Neuroscience. Blackwell Publishing, 2010.
Canguilhem, G. – O normal e o patológico.
Forense Universitária, (1996) 2009.
Duarte, R. (org.) – Belo, Sublime e Kant.
Editora UFMG, 1998.
Eco, U. – As Formas do Conteudo. Editora
Perspectiva, 1974.
Eco, U. – Tratado Geral de Semiótica.
Editora Perspectiva, (1976) 1991.
Eco, U. – A Estrutura Ausente. Editora
Perspectiva, 1991.
Edwards, B. – Desenhando com o lado
direito do cérebro. Ediouro, 2000.
Foucault,
M. – L’archéologie du savoir. Éditions
Gallimard, 1969.
Foucault, M. – As palavras e as coisas.
Editora Martins Fontes, (1981) 2002.
Fourez, G. – A Construção das Ciências –
Introdução à Filosofia e à Ética das Ciências. Editora Unesp, (1991) 1995.
Frascina, F. et al. – Modernidade e
Modernismo – a pintura francesa no século XIX. Cosac & Naify Ed. 1998.
Freud, S. – O mal-estar na Civilização.
Imago Editora, 2002.
Huizinga, J. – Homo Ludens. Editora
Perspectiva, 2010.
Ianni, O. – Enigmas da Modernidade-Mundo.
Editora Civilização Brasileira, 2000.
Jourdain, R. – Música, Cérebro e Êxtase.
Editora Objetiva, 1998.
Leão, L. – Interlab – Labirintos do
Pensamento Contemporâneo. Editora Iluminuras, 2002.
Navarro, P (org.) – O discurso nos
domínios da linguagem e da história. Editora Claraluz, 2008.
Rossi, P. – A Ciência e a Filosofia dos
Modernos. Editora Unesp, 1992.
Charon, Rita
– Narrative Medicine – Honoring the stories of Illness. Oxford University
Press, 2006.
Mehl-Madrona,
Lewis – Healing the mind through the power of story. Bear & Company.
Mehl-Madrona,
Lewis – Narrative Medicine - The Use of History and Story in the Healing
Process. Bear & Company.
A, H. Hawkins
e M. C. Mc Entyre – Teaching Literature and Medicine
Arthur Kleinmann
– The Ilness Narratives suffering healing & the Human Condition.
Arthur W.
Frank – The Wounded Storyteller.
L. M. Medrona
– Healing the Mind through the Power of Story – The promise of Narrative
Psychiatry.
Brian Boyd –
On the origin of stories: evolution, cognition & fiction.
Nos seminários serão usadas obras de Homero, Eça de Queiroz, Dostoiévski, John Steinbeck, George Orwell, Mário de Andrade, e outros autores.
domingo, 11 de junho de 2017
Medicina Narrativa – Aula 2
Narrativa e o binômio Saúde/Doença
Se pensarmos em uma construção de
conceitos, quais palavras podem expressar “Saúde” e “Doença”?
Como construir a Narrativa de
Doença e de Saúde?
As narrativas convencionais de
doença e de saúde incluem: Anamnese, Exame Físico, Diagnóstico e Terapêutica. Eventualmente alguém poderia perguntar se a
narrativa não corresponde apenas à anamnese. Em um primeiro momento seria
pensado dessa forma, já que a história clínica tradicional corresponde à
anamnese. No entanto, os outros itens também possuem cada um sua “narrativa
própria”.
O Exame Físico tem uma narrativa
que, em um primeiro momento, já vem contada pelo próprio corpo do paciente na
maneira como ele se apresenta, por inteiro, não apenas um corpo biológico, mas
também um corpo com sua dinâmica, seu comportamento, seus trejeitos, sua
narrativa social e cultural expressa na roupa que o cobre e em suas atitudes e
expressões. Outra narrativa do corpo é aquela do Exame Físico propriamente
dito. A apresentação inicial do corpo do paciente já tem em si uma narrativa
que “é lida” pelo profissional de saúde através da lente de seu treinamento
para esse tipo de leitura. A partir do Exame Físico propriamente dito uma outra
narrativa se estabelece, a qual será relatada no prontuário médico, seguindo um
determinado padrão de linguagem que tem também seus parâmetros de espaço/tempo,
sendo uma reinterpretação, uma releitura daquela história clínica, que vai
complementá-la, ou questioná-la.
O Diagnóstico também implica em
outra narrativa. O discurso do Diagnóstico é sintetizado, muitas vezes, em um
diagnóstico sindrômico, cujas palavras simbolizam, significam uma narrativa
construída a partir do conhecimento médico. Ao mesmo tempo o Diagnóstico é uma
espécie de Epílogo da narrativa clínica, como que dando um desfecho na
somatória das narrativas que o precedem.
A Terapêutica tem uma narrativa que
se desdobra em várias partes. Há um discurso inicial a respeito do que consta
em protocolos, manuais, consensos adequados aos diagnósticos obtidos. Mas
segue-se o caráter de singularidade do próprio paciente, na medida em que a
terapêutica padronizada precisa ser adaptada às condições individuais do
paciente. Segue-se ainda uma outra parte que é a terapêutica cotidiana
propriamente dita, que diz respeito ao dia a dia da ingesta ou aplicação de
medicamentos.
Vemos então que a própria Medicina
ou ainda os Cuidados da Saúde convencionais têm já sua narrativa, se nós
atentarmos para isso. A prática da Saúde muito automatizada ou grandemente
imbuída de tecnologia fez que se perdesse o caráter narrativo desse campo de
atuação. A Medicina Narrativa vem resgatar, renovar e adaptar a novas
instâncias as narrativas já presentes nas práticas convencionais.
Além disso, o recurso a outras
fontes de conhecimento e de outras narrativas pode acrescentar novos elementos
a esse estudo e essa prática. Assim, Ciências Humanas e mesmo as assim chamadas
Ciências Exatas podem acrescentar novos elementos narrativos ao âmbito
Saúde/Doença. Também
aspectos culturais os mais diversos podem trazer elementos enriquecedores para
a Medicina Narrativa.
Além de todos esses fatores é importante relembrarmos os
precedentes da Medicina Narrativa que vieram de estudos de “Literatura e
Medicina” que chamaram a atenção de Dra. Rita Charon para as pontes existentes
entre esses dois campos. Assim ela se expressou a respeito da criação do nome
desse campo: “O nome ‘Medicina
Narrativa’ veio à mim como um termo único para significar uma prática clínica
configurada pela teoria e prática de ler, escrever, contar e receber
histórias”.
Outro aspecto interessante é
assinalarmos que o que pode ser chamado como “Medicina Baseada em Narrativa” faz interfaces com a consagrada “Medicina Baseada em Evidências” (ver, por exemplo, artigo de Kalitzkus e
Mathiessen de 2009).
A própria Medicina Baseada em
Evidências tem uma janela aberta a aspectos narrativos. Conforme vemos abaixo
no diagrama (Cochrane.org), a prática da Medicina Baseada em Evidências tem
três aspectos que se interseccionam: as melhores evidências científicas, a
capacidade clínica do profissional, os valores e expectativas do paciente.
Conforme a figura abaixo do British Medical Journal, outras
palavras para abordar os mesmos três aspectos são: evidência científica
relevante, julgamento clínico e valores e preferências do paciente.
Conforme vimos em ambos os quadros há espaços para a Medicina
Baseada em Narrativa fazer interconexões com a Medicina Baseada em Evidências.
Das três seções a que tem mais possibilidade de dar espaço à narrativa
corresponde a “valores e preferências do paciente”. Neste campo, a abertura
para que a relação profissional/paciente possa ser alimentada pela prática
narrativa é notável. Também o campo do “julgamento clínico” pode se valer de
prática narrativa que aprimore seu procedimento.
Agora, para aprofundarmos a discussão a respeito de
Saúde/Doença, vamos abordar um tema que temos repetido periodicamente em vários
cursos que é o “Conceito Ampliado de Saúde”. Para isso, vamos olhar o conceito
de saúde a partir da tradição ocidental.
Primeiramente entre os Gregos.
Para Pitágoras (570-495 a.C.) e
pitagóricos, para Hipócrates (460-370 a.C.) e seus seguidores, Saúde é o
EQUILÍBRIO entre os humores do corpo (sangue, fleugma, bile negra, bile
amarela) e entre os elementos da natureza (fogo, terra, ar, água).
Assim, os tratamentos que
prescreviam eram: dietas, exercícios, meditação, música, etc.
Entre os Romanos, ao mesmo tempo em
que se manteve a influência dessa tradição, atingindo Galeno, entre outros,
surgiu um conceito de saúde que se sintetizou em uma frase proferida pelo poeta
Juvenal no século I d.C.: “Mens sana in
corpore sano”. Ou seja, mente sã em corpo são. Esta noção repete o conceito
Grego, mas inserindo a ideia de mente e de corpo, indicando já uma divisão que
séculos depois será atribuída a Descartes.
Sem querer entrar em outros tantos
detalhes históricos, pois esse não é o escopo principal desta aula, vamos dar
um salto mais adiante à transição do século XVII para o século XVIII.
Antes disso vamos mencionar uma
frase bastante tradicional de origens que remontam a Hipócrates e os
hipocráticos: “Não existem doenças, existem doentes”. Essa frase já foi
atribuída a diversos autores, mas o fato é que ela acaba se reportando a
Hipócrates e os hipocráticos, na medida em que se buscam seus precursores.
No século XVIII, Johann Peter Frank
(1745-1821) deu início à Saúde Pública, no cuidado à população.
No início do século XIX, Bichat
(1771-1802) lançou a ideia de “sistemas” em relação às partes do organismo.
Ainda no mesmo século Claude
Bernard (1813-1878) criou a conceituação de meio interno e meio externo em
relação aos seres vivos.
Rudolph Virchow (1821-1902) nesse
mesmo século lançou a ideia de patologia celular, deslocando a noção de doença
para as células do organismo.
No século XIX Louis Pasteur
(1822-1895) descobriu a correlação entre doenças e microrganismos, trazendo
todo um novo paradigma para a medicina.
Já no século XX, Walter Bradford
Cannon (1871-1945) deu configuração ao conceito de Homeostase como equilíbrio
entre meio interno e meio externo iniciado por Claude Bernard.
Também no século XX, Hans Selye
(1907-1982) lançou a ideia de “stress”.
Temos também neste século: “A Saúde
é a vida no silêncio dos órgãos”. Famosa frase de René Leriche (1879-1955).
Em meio ao caminhar desses
conceitos, o processo de entendimento da saúde mental resumidamente caminhou de
Pinel (1745-1826) a Freud (1856-1939) e Kraepelin (1856-1926), em um percurso
entre conceituações mais ou menos organicistas.
Apesar disso tudo: “Mens sana in
corpore sano” continua sendo uma maneira simples de expressar saúde, ao
mesmo tempo em que mantém certa dicotomia.
Finalmente, em 1948, a Organização
Mundial de Saúde lançou o Conceito de Saúde que tem sua aplicação geral como:
“pleno BEM-ESTAR físico, mental e social”. Ou seja, já se tinha então a noção de que saúde não é apenas ausência de doença. Vê-se nessa
conceituação a ideia de saúde como algo associado a “bem estar”. A situação de
diversos traumas ligados às duas grandes guerras conduziu a uma política de
promoção de “bem estar” às populações, de modo que a ideia de saúde se amplia
de bem estar físico e mental (mens sana
in corpore sano) para também uma ideia de “bem estar social”, o que implica
a noção do coletivo, em que se incluem práticas de prevenção, como, por
exemplo, vacinação, e de promoção de saúde pública.
No fim do século XX, o conceito de saúde da OMS torna-se insuficiente para compreender todas as
condições de “bem-estar” e de “mal-estar” que surgem a partir dos anos 1960,
quando, juntamente com os movimentos de contracultura, novos caminhos são
propostos para configurar essas ideias, incluindo conceitos provindos de
culturas orientais e indígenas. Portanto, buscaram-se formulações do conceito
de saúde que pudessem abranger
outras condições.
Na Conferência de Ottawa da OMS
(1986) surgiu uma ideia de PROMOÇÃO DA SAÚDE, inserindo
variáveis CULTURAIS no processo saúde/doença, bem como nessa ideia de promoção.
A partir dessas ideias, também se procurou estudar as correlações entre saúde/doença
e espiritualidade.
Assim, tem-se então um Conceito
Ampliado de Saúde que contempla aspectos culturais ligados ao binômio
saúde/doença.
No ano de 2001, elaboramos uma
forma de trabalhar o Conceito Ampliado de Saúde a partir de um quadro do
filósofo Ken Wilber, no livro “The Eye of Spirit”, onde ele apresenta um quadro
a respeito dos campos do conhecimento humano. Esse quadro deu-nos a ideia de
substituir os campos do conhecimento por campos de saúde, mantendo as colunas
como interior e exterior e as linhas como individual e coletivo. Na intersecção
entre esses diferentes campos têm-se então para o individual exterior o campo
físico (ou biológico) da saúde; na intersecção entre interior e individual,
têm-se a saúde psíquica (ou mental); no quadro equivalente ao coletivo exterior
têm-se o campo “social” da saúde; na intersecção entre coletivo e interior
têm-se o campo “cultural”. Temos então para o campo “físico” a dimensão
“objetiva”; no campo “psíquico”, a dimensão “subjetiva”; no campo “social”, a
dimensão “interobjetiva”, no campo “cultural” a dimensão “intersubjetiva”. Mais
frequentemente existe a tendência de reducionismo da saúde/doença do indivíduo
ao campo “físico”. No entanto, bem estar e mal estar podem provir de qualquer
de um dos campos e pode influir os outros três no sentido de melhorar ou de
piorar.
Ainda pode-se considerar a possibilidade de um quinto campo
decorrente de todos os outros quatro que pode ser chamado de “campo ambiental”,
onde se entende meio ambiente como o que diz respeito tanto ao interior como ao
exterior dos indivíduos e das comunidades, bem como a ideia de “ambiência”,
onde o meio ambiente ecológico encontra intersecção com o ambiente cultural.
A Medicina Narrativa se estabeleceu
concomitantemente à ampliação do conceito de saúde na transição do século XX
para o XXI.
Além disso, a
construção e o aprimoramento COGNITIVO dos profissionais, a partir de narrativas, permitem a percepção de
uma visão ampliada de saúde.
quinta-feira, 1 de junho de 2017
Parte 2 da aula 1: Curso "Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde"
Conforme a Profa. Dra. Rita Charon, da Universidade de
Columbia, a Medicina Narrativa é uma medicina praticada com competência narrativa para reconhecer,
absorver, interpretar e ser tocado pelas histórias (estórias) de doenças (e de
doentes).
A Medicina Narrativa busca:
-
Aumentar a capacidade de percepção clínica.
-
Levar a um cuidado mais humano, mais ético e mais
efetivo.
A Medicina Narrativa provém dos
seguintes campos:
- Humanidades e Medicina
- Cuidados Primários em Medicina
- Narratologia contemporânea (que é o estudo de estruturas e de elementos das narrativas)
- Estudos de relação
médico-paciente.
- Literatura e Medicina
- Cuidado centrado no vínculo
indivíduo/comunidade/profissional da saúde
O estudo da Medicina diz respeito
ao estudo do ser humano.
Tudo o que se estuda em Medicina, e
além dela, vai, gradativamente,
configurando o que se entende por “ser humano”.
Profissionais da saúde precisam de
meios para:
-
Singularizar o cuidado ao paciente
-
Reconhecer/perceber a ética profissional e os deveres pessoais ao doente
-
Produzir “correlações terapêuticas” com pacientes, entre
profissionais e com o público.
Hoje em dia, a falta de singularidade, humildade, responsabilidade,
empatia pode ser provida, em parte, pela Medicina Narrativa.
A atividade da medicina narrativa é
compatível com uma prática multiprofissional.
O que é multiprofissional pode ser multidisciplinar ou
interdisciplinar. Cada um desses conceitos tem suas particularidades e tem suas
intersecções.
Multidisciplinaridade: é o que
já está presente desde Aristóteles. Corresponde a cada
área do Conhecimento com sua linguagem e seu método.
Interdisciplinaridade: permite
uma permuta de linguagens e de métodos, ou ainda a adoção da mesma linguagem e
método por diferentes campos do Conhecimento.
Transdisciplinaridade: diz respeito mais a uma “metalinguagem” e “metamétodos”, ou seja,
transversaliza diferentes campos do Conhecimento, mas ao mesmo tempo sem o tipo
de envolvimento da interdisciplinaridade, já que aborda “linguagem e método” do
“lado de fora”, ou seja sem submeter-se às condições e normas de linguagem e
método dos campos. A transdisciplinaridade também inclui “culturalidade”, ou seja, admite no
processo de Conhecimento as variáveis culturais. Também a
transdisciplinaridade, por suas características, concilia paradoxos.
São 3 os pilares da
transdisciplinaridade:
1 –Níveis de Realidade.
Deve-se admitir que a abordagem do
Real pode acontecer em diferentes níveis de realidade, de modo que em cada
nível há condições próprias. Não se pode reduzir todo o fenômeno a apenas um
nível de realidade. Assim, este pilar também propõe uma atitude de “anti-reducionismo”. Se, por exemplo, levarmos para o âmbito do ser
humano, podemos ver que “ser humano” não se reduz ao nível da realidade
biológica, mas há outros níveis de realidade, como cultural, social, entre
outros, que vão compor a realidade do indivíduo.
2 – Complexidade.
A Complexidade também é
anti-reducionista.
Uma forma de entender a
complexidade é a frase:
“O todo é mais do que a soma das
partes”. Assim, mesmo que se juntem
todas as partes não se tem um todo. Isso porque o todo implica em alguma coisa
a mais do que apenas se ter as partes. Passa a estar presente também o vínculo
entre as partes, os fatores que unem as partes, a energia, os desdobramentos
provenientes da existência desse todo que articula essas partes.
3 – Terceiro incluído.
O terceiro incluído segue uma
lógica diferente do “terceiro excluído”. Neste, em uma configuração lógica onde
A e B não se correlacionam, o terceiro excluído corresponde a um não-A e não-B.
Já no terceiro incluído não-A e
não-B pode implicar em um C que possa harmonizar não-A e não-B em convivência
simultânea. Os autores dão como exemplo dessa situação a conceituação física
quântica de “quanta”. Isso acaba resolvendo a dicotomia entre as possibilidades
de um fóton ser partícula ou de ser onda. No quanta essas duas possibilidades
convivem em um nível de realidade acima de ambos. Assim admite paradoxos. Vai além dos pares de opostos.
Como uma espécie de quarto pilar
temos a culturalidade já citada.
A Medicina Narrativa é:
-
Um reforço à anamnese tradicional
-
Uma recuperação do valor dessa anamnese no século
21.
-
Educa uma escuta focada e o olho clínico que direcionam as decisões baseadas em evidência.
Protocolos médicos são boas
ferramentas em mãos de quem raciocina a respeito de sua aplicação, adapta-os à singularidade do paciente e de sua cultura.
Isso é possível a partir de uma boa
anamnese, e do exercício narrativo.
A Medicina Narrativa pode aprimorar
no profissional de saúde a percepção de quando e quanto deve acrescentar de
dados à anamnese, permitindo conhecer aspectos da vida do paciente que podem
interferir no processo saúde/doença, e usualmente passam despercebidos.
sábado, 27 de maio de 2017
Aula 1 do Curso "Medicina Narrativa: Processo Interdisciplinar em Saúde" Parte 1
Este curso está inserido no Setor de Neuro-Humanidades da
Disciplina de Neurologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal
de São Paulo.
O Setor de Neuro-Humanidades trabalha com as intersecções
entre Neurociências e Ciências Humanas. No sentido amplo do termo,
Neurociências, no plural, é uma designação que engloba os diversos campos de
estudo com o prefixo “neuro”, além da Neurociência, no singular, propriamente
dita, que se refere mais propriamente à Ciência Básica de Pesquisa assim
denominada.
Então, Neuro-Humanidades diz respeito a interfaces entre
áreas “Neuro” e os campos de estudo como Filosofia, História, Sociologia,
Antropologia, Letras, Literatura, etc. Portanto, trata-se de um campo
“interdisciplinar”.
Neste campo, trabalhamos com algumas ideias básicas que nos
orientam. Para nós não existe processo ou evento humano que seja “a-histórico”
ou “a-psicológico”, ou seja, não se pode desvencilhar qualquer campo do
Conhecimento da História e da Psicologia. A história humana e a psique humana
estão em qualquer processo humano. Afirma-se isso porque, eventualmente
pensa-se que a Ciência (principalmente as Hard Sciences) seria algo que se faria
por si, acumulando conhecimentos científicos, independentemente da história
humana e da psique humana, sem depender de outros fatores que não seus próprios
parâmetros.
Também em Neuro-Humanidades colocamos que não temos nem a
única, nem a última palavra, sobre qualquer coisa. Os diversos campos de
Conhecimento podem usar os mesmos termos para significar coisas diferentes
dentro de linguagem e contextos próprios da cada um desses campos. Deve-se
situar o contexto e outros fatores dentro dos quais se esteja inserindo
determinado termo ou conceito. Além disso, frisamos que não temos todas as
respostas. Se ao fim de determinado estudo chegarmos a formular alguma
pergunta, já pode ser um avanço em nosso estudo, mais do que a própria resposta. O filósofo Henri Bergson dizia
que quando formularmos nossos próprios problemas, seremos livres. Ele quis
dizer que, em geral, somos treinados para trazer soluções a problemas que já nos
chegaram com esse título, “problema”, e já assim estruturados. Precisaríamos
aprender a verificar se realmente se trata de um problema e estruturar a
configuração do problema. Deveríamos perguntar: 1 - realmente existe esse problema? 2 - Se existe, qual seu contexto? 3 - qual a real dimensão do problema? Assim, a formulação de perguntas pode já significar um entendimento do processo estudado. Ao se estudar algum
assunto, não necessariamente deve-se chegar a todas as respostas, mas
eventualmente descobrir ou propor caminhos.
Em Neuro-Humanidades interessa-nos mais os vínculos, as
ligações, os processos entre as coisas, do que as próprias coisas. Mais os
processos do que os fatos. Em nossa cultura temos forte influência do
Positivismo do século XIX. A ciência positivista baseia-se na constatação de
fatos e que esses fatos seriam indiscutíveis e que se caminha de comprovação em
comprovação crescente na acumulação de conhecimento. Mas, a formação atual do
Conhecimento, principalmente do Conhecimento Médico vem a partir da Medicina
Baseada em Evidências, evidências essas que não são necessariamente fatos, mas
decorrências de estudos diversos associados a Bioestatística e Epidemiologia. Na
interface de Neuro e Humanidades o foco mais nos processos do que nos fatos
procura estudar elementos menos focalizados nos estudos habituais.
Finalmente, a “linguagem”. Para nós a linguagem é
fundamental, não só a linguagem verbal, mas todas as formas de linguagem. No
entanto, a linguagem verbal assume importância singular na medida em que com
ela se constrói toda forma de Conhecimento, incluindo o conhecimento “Neuro”. A
linguagem precede até mesmo a noção de conceituações neurológicas básicas.
Antes vem a linguagem, depois vêm os conceitos. “Ser Humano, Linguagem, Cultura”
são três elementos associados desde o início de sua existência. Cada um desses três
fatores está fortemente e indissoluvelmente ligado aos outros dois. Comer, beber, dormir, procriar são atividades
básicas das diferentes espécies animais; mas no ser humano cada um desses
fatores está sempre marcado pela Cultura, por elementos culturais; a Cultura
que é fruto da convivência comunitária de seres humanos desde os primórdios em
que se possa referir a “ser humano”. A conceituação de “ser humano” sempre
implica em “comunidade”, de onde provém “a cultura”. Associada a ambos está a
“linguagem”.
Assim, a linguagem é a principal ferramenta, mas também pode
ser obstáculo ao Conhecimento. Sua capacidade, suas possibilidades são também
seus limites.
Para ilustrar isso podemos lembrar uma passagem de Thomas
Kuhn em sua coletânea póstuma “Depois da Estrutura”. Ele, que tinha formação em Física, ao estudar Aristóteles, achou estranho o conceito aristotélico de
“movimento”. Em primeiro momento achou que Aristóteles nada entendia de Física.
Mas depois ele veio a entender que “movimento” para Aristóteles tinha outro
sentido: para ele, por exemplo, a metamorfose na natureza, de larva em
borboleta, era um “movimento”. Ou seja, a ideia de movimento englobava também
formas de transformação. A partir daí, Kuhn passou a respeitar Aristóteles e
esse foi um dos elementos que o levaram a configurar sua ideia de
“incomensurabilidade de paradigmas”, na medida em que eles usem diferentes
linguagens e métodos.
Outro aspecto sobre a linguagem diz respeito à importância da
metáfora para o Conhecimento. A metáfora permite a passagem de palavras entre
diferentes campos do Conhecimento, mas com sentidos associados, não exatamente
os mesmos de seu campo de origem. Podemos pensar, por exemplo, nas diversas
passagens da palavra “célula” desde sua origem como “pequena cela” quando vista
pela primeira vez pelo microscópio por Robert Hooke, que associou o que via a “pequenos
cômodos” que chamou então de células. Daí para diante esse termo percorre
diversos campos do Conhecimento e mesmo da linguagem coloquial.
Tendo visto esta introdução a respeito de alguns conceitos
básicos para os estudos em Neuro-Humanidades, passemos então a falar da
Medicina Narrativa como uma prática interdisciplinar na área da Saúde.
Ao falarmos de “interdisciplinaridade” devemos entender esse
termo. Ele costuma ser estudado com os termos Multidisciplinaridade e
Transdisciplinaridade. Multidisciplinaridade é uma associação de disciplinas
que segue um modelo que iniciou-se com Aristóteles, embora ele mesmo não usasse
esse termo; essa é uma conceituação que surge no século XX, a respeito do
Conhecimento no sentido amplo do termo. Na Multidisciplinaridade cada
disciplina fica com seu método e sua linguagem, havendo apenas algum contato
entre disciplinas. É o modelo tradicional, convencional da maioria das escolas.
Já a interdisciplinaridade implica em uma permuta de linguagens e métodos. A
transdisciplinaridade não é um degrau acima de multi e interdisciplinaridade. A
transdisciplinaridade transversaliza as outras duas formas de associação de disciplinas,
de modo que trabalha mais com uma espécie de metalinguagem e de “metamétodo”;
na transdisciplinaridade a cultura, ou a culturalidade sempre é levada em
consideração.
Visto isso, afirmar que a Medicina Narrativa é uma área
interdisciplinar implica em que permite a permuta de linguagens e métodos entre
diferentes áreas do Conhecimento ligadas à saúde. Ao falarmos área da Saúde
também podemos ampliar essa designação para saúde/doença, na medida em que
ambas têm sua fundamentação de forma mútua, embora não sejam exatamente
equivalentes.
A ideia de saúde/doença surgiu para o ser humano a partir da
constituição do próprio “ser humano”, naqueles primórdios já referidos, em que
se tem ser humano, linguagem e cultura surgindo associados. Dessa forma, a percepção
de “sofrimento e dor” passou a ser algo presente a partir do momento em que se
tem “ser humano no mundo”. Pode-se eventualmente alegar que os animais também
sofrem; o que é certo. Mas, mesmo esta conceituação vem do ser humano que pensa
a esse respeito. Assim a percepção e elaboração de alguma coisa que passa a ser
nomeada como “sofrimento ou dor” é algo próprio do ser humano. “Nomear” é algo
próprio do ser humano. Assim
também a verbalização sobre o binômio saúde/doença.
Frisamos que sempre ensinamos que “não existem doenças,
existem doentes”. Isso significa que doenças são resultado da abstração médica
a partir de sinais e sintomas. Sinais e sintomas similares podem significar uma
doença em um século e outra doença em outro, porque ambas são construídas a
partir do contexto histórico presente de cada uma.
Assim como o ser humano “nomeia” com sua linguagem verbal,
mas também a partir da percepção de outras linguagens, ele discorre verbalmente
a respeito dos eventos que o cercam. Usualmente e inicialmente a partir de
noções de espaço e de tempo. Sempre o ser humano narra sucessivamente e
comparativamente os eventos de sua vida e de sua comunidade desde os tempos
primordiais. Assim se constituíram as narrativas. Entre elas, as narrativas das
doenças. Talvez, paradoxalmente, as narrativas de doenças tenham precedido as
narrativas de saúde, já que na medicina as doenças são abstrações. No entanto,
em tempos primordiais as “doenças-narrativas” tinham certos significados dentro
do mundo cotidiano dos seres humanos de modo algo diferente da conceituação
científica de doença.
Deixemos este debate para outra oportunidade. Agora
comentemos um pouco sobre Medicina Narrativa.
O termo Medicina Narrativa foi criado pela Profa. Dra. Rita
Charon, professora de Medicina na Columbia University em Nova York, no ano
2000. A criação desse termo veio após longa vivência como médica e professora,
bem como a partir de contato com área da Literatura, onde fez Doutorado. No ano
de 2009 ela teve aprovado o programa de Mestrado em Medicina Narrativa na mesma
Universidade.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Curso: "Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde"
Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à
saúde.
Curso de Extensão
Ementa:
A Medicina Narrativa corresponde a uma abordagem da questão
saúde-doença do ponto de vista da narrativa, da história do doente em seu
sentido mais amplo, compreendendo não apenas aspectos biológicos, mas também
sociais e culturais. Nesse sentido, uma das ferramentas da medicina narrativa é
a Literatura, além do estudo da linguagem. Esse processo pode aprimorar a
percepção clínica, bem como fornecer mais elementos para a equipe
multiprofissional que atua conjuntamente, seja no sentido diagnóstico como terapêutico.
Responsável: Prof. Dr. Afonso Carlos Neves
Prof. Dr. Afonso Carlos Neves – Professor
Afiliado da Disciplina de Neurologia da Unifesp, Coordenador do Setor de
Neuro-Humanidades da Disciplina de Neurologia. Mestrado e Doutorado em
Neurologia (Unifesp), Pós Doutorado em Neurologia (UCSF) e Doutorado em
Historia Social da Ciência (USP).
Público Alvo:
- Todos os interessados que estejam cursando nível superior
ou já tenham concluído.
- Disciplina optativa eletiva para alunos da Unifesp.
- Pós-graduandos.
Carga horária: 36 horas, sendo 16 horas presenciais e 20
horas não presenciais para preparação de seminários relativos a trabalhos com
textos literários.
2 Créditos para Pós-Graduação; 2 créditos para alunos da
Unifesp.
Horário:
Quintas-feiras, de 04 de maio a 29 de junho de 2017.
Das 12 às 14 horas.
Local: Anfiteatro Lemos Torres.
Programa:
Aula 1 – 04/05
Fundamentos da Medicina Narrativa I
Aula 2 – 11/05
Fundamentos da Medicina Narrativa II
Aula 3 – 18/05
Fundamentos da Medicina Narrativa III
Aula 4 – 25/05
Linguagens e Discursos
Aula 5 – 01/06
História
da Educação Médica
Aula 6 – 08/06
Seminários
Aula 7 – 22/06
Seminários
Aula 8 – 29/06
Seminários
Bibliografia:
Charon, Rita
– Narrative Medicine – Honoring the stories of Illness. Oxford University
Press, 2006.
Mehl-Madrona,
Lewis – Healing the mind through the power of story. Bear & Company.
Mehl-Madrona,
Lewis – The Use of History and Story in the Healing Process. Bear & Company.
Outras referências a serem citadas em sala de aula referentes
a textos literários dos escritores Moacyr Scliar, Mário de Andrade, Lima
Barreto, Thomas Mann, A. J. Cronin e outros.
Inscrições em:
https://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Multi, Inter, Transdisciplinaridade – Parte 2
As palavras
Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade passaram a
circular em ambientes relacionados a estudos do Conhecimento e da Educação
principalmente a partir da década de 1990. Tais termos passaram a ser muito
utilizados na linguagem cotidiana desses e de outros campos de estudo, de tal
modo que acompanharam até mesmo certo modismo nos discursos em torno desses
temas e de temas similares.
Cada palavra carrega diversos
elementos além do seu significado básico inicial. Esses elementos podem ser
tanto racionais quanto emotivos e podem despertar atração ou repulsão
dependendo do contexto em que o termo esteja sendo usado, ou seja, dependendo
de espaço, tempo e do agrupamento humano que faça uso do termo específico.
Talvez por conta da força do
próprio prefixo “multi”, que sinaliza algo próspero, crescente, positivo,
progressivo, o termo “multidisciplinar” frequentemente é usado para além de seu
significado original. Não queremos dizer com isso que esse uso esteja errado.
As palavras têm diversos sinônimos e significados dependendo do ambiente em que
estejam sendo usadas. No entanto, tem havido algum engano no uso da palavra “multidisciplinar”
por se estar querendo dizer alguma coisa que talvez tenha melhores palavras para
descrever, como, por exemplo, “interdisciplinaridade”, ou eventualmente pela
descoberta da palavra “multidisciplinaridade” por alguém que tenha certo
encanto pela sonoridade e pela aparente praticidade que a palavra pode
proporcionar, ou ainda por ser uma palavra que possa engrandecer a atividade ou
a pessoa que a aplique, bem como por certa sensação de modernidade ou
contemporaneidade ao pronunciar ou escrever “multidisciplinaridade”.
Como multidisciplinaridade reúne o
prefixo “multi”, de origem grega e a raiz “disciplina”, de origem latina, os
franceses preferem o termo “pluridisciplinaridade”. Na verdade, ambos dizem
respeito à mesma coisa.
Com certa frequência alguém diz
que “agora aqui já somos multidisciplinares”, ou “agora adotamos a
multidisciplinaridade”. Isso pode ser verdade se o local em questão tiver sido
apenas “unidisciplinar” anteriormente. Nem sempre é esse o caso.
Embora o uso desse termo tenha
começado na segunda metade do século XX, podemos dizer que a
multidisciplinaridade tenha começado com Aristóteles. Devemos frisar que o
próprio Aristóteles não tinha como se considerar “multidisciplinar”, haja vista
ser esse um conceito de nossos tempos. No entanto, na cultura ocidental, ele
foi o primeiro que estabeleceu de maneira mais regularizada, ou organizada, a
divisão de áreas do Conhecimento. Certamente ele foi precedido por outros que
também tinham certa divisão de campos do Conhecimento. Se formos nos reportar
aos primórdios mais longevos da humanidade a respeito de quando teria se
iniciado a divisão de Conhecimento, iremos até o Período Paleolítico da
Pré-História, na assim chamada cultura de “caçador-coletor”, onda já havia uma
divisão de trabalho e, portanto de conhecimento entre dois grupos: homens
caçadores de animais, mulheres coletoras de materiais vegetais diversos. Essa
divisão de trabalho propiciou um gradual aprimoramento de cada um desses grupos
na sua própria área de conhecimento, de modo que a partir de certo ponto
passaram a ter noção de refinados e detalhados fatores de suas áreas respectivas,
incluindo até determinados “segredos” da arte de cada uma dessas áreas. Isso
certamente acabou levando a um processo de “iniciação” das pessoas mais jovens,
com etapas de aquisição de conhecimento desde a infância e a partir de certa
idade com “rituais de passagem”, indicando a possibilidade de prosseguir na
aquisição de conhecimento e sua aplicação prática.
Se assim era na Pré-História,
mais refinado passa a ser quando o Conhecimento se torna sistematizado e
organizado, principalmente a partir dos filósofos, quando falamos de Ocidente,
e, de certa forma, culminando com Aristóteles como um organizador algo formal
desse Conhecimento. Evidentemente o processo não para por aí. Mas, entre os
filósofos anteriores a Aristóteles e ele próprio, podemos propor que ele tenha
sido o primeiro a relacionar as áreas do Conhecimento, de modo que sejam
similares a aquilo que denominamos “multidisciplinaridade”.
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