sábado, 27 de maio de 2017

Aula 1 do Curso "Medicina Narrativa: Processo Interdisciplinar em Saúde" Parte 1


     Este curso está inserido no Setor de Neuro-Humanidades da Disciplina de Neurologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.
    O Setor de Neuro-Humanidades trabalha com as intersecções entre Neurociências e Ciências Humanas. No sentido amplo do termo, Neurociências, no plural, é uma designação que engloba os diversos campos de estudo com o prefixo “neuro”, além da Neurociência, no singular, propriamente dita, que se refere mais propriamente à Ciência Básica de Pesquisa assim denominada.
     Então, Neuro-Humanidades diz respeito a interfaces entre áreas “Neuro” e os campos de estudo como Filosofia, História, Sociologia, Antropologia, Letras, Literatura, etc. Portanto, trata-se de um campo “interdisciplinar”.
    Neste campo, trabalhamos com algumas ideias básicas que nos orientam. Para nós não existe processo ou evento humano que seja “a-histórico” ou “a-psicológico”, ou seja, não se pode desvencilhar qualquer campo do Conhecimento da História e da Psicologia. A história humana e a psique humana estão em qualquer processo humano. Afirma-se isso porque, eventualmente pensa-se que a Ciência (principalmente as Hard Sciences) seria algo que se faria por si, acumulando conhecimentos científicos, independentemente da história humana e da psique humana, sem depender de outros fatores que não seus próprios parâmetros.
     Também em Neuro-Humanidades colocamos que não temos nem a única, nem a última palavra, sobre qualquer coisa. Os diversos campos de Conhecimento podem usar os mesmos termos para significar coisas diferentes dentro de linguagem e contextos próprios da cada um desses campos. Deve-se situar o contexto e outros fatores dentro dos quais se esteja inserindo determinado termo ou conceito. Além disso, frisamos que não temos todas as respostas. Se ao fim de determinado estudo chegarmos a formular alguma pergunta, já pode ser um avanço em nosso estudo, mais do que a própria resposta. O filósofo Henri Bergson dizia que quando formularmos nossos próprios problemas, seremos livres. Ele quis dizer que, em geral, somos treinados para trazer soluções a problemas que já nos chegaram com esse título, “problema”, e já assim estruturados. Precisaríamos aprender a verificar se realmente se trata de um problema e estruturar a configuração do problema. Deveríamos perguntar: 1 - realmente existe esse problema? 2 - Se existe, qual seu contexto? 3 - qual a real dimensão do problema? Assim, a formulação de perguntas pode já significar um entendimento do processo estudado. Ao se estudar algum assunto, não necessariamente deve-se chegar a todas as respostas, mas eventualmente descobrir ou propor caminhos.
     Em Neuro-Humanidades interessa-nos mais os vínculos, as ligações, os processos entre as coisas, do que as próprias coisas. Mais os processos do que os fatos. Em nossa cultura temos forte influência do Positivismo do século XIX. A ciência positivista baseia-se na constatação de fatos e que esses fatos seriam indiscutíveis e que se caminha de comprovação em comprovação crescente na acumulação de conhecimento. Mas, a formação atual do Conhecimento, principalmente do Conhecimento Médico vem a partir da Medicina Baseada em Evidências, evidências essas que não são necessariamente fatos, mas decorrências de estudos diversos associados a Bioestatística e Epidemiologia. Na interface de Neuro e Humanidades o foco mais nos processos do que nos fatos procura estudar elementos menos focalizados nos estudos habituais.
     Finalmente, a “linguagem”. Para nós a linguagem é fundamental, não só a linguagem verbal, mas todas as formas de linguagem. No entanto, a linguagem verbal assume importância singular na medida em que com ela se constrói toda forma de Conhecimento, incluindo o conhecimento “Neuro”. A linguagem precede até mesmo a noção de conceituações neurológicas básicas. Antes vem a linguagem, depois vêm os conceitos. “Ser Humano, Linguagem, Cultura” são três elementos associados desde o início de sua existência. Cada um desses três fatores está fortemente e indissoluvelmente ligado aos outros dois.  Comer, beber, dormir, procriar são atividades básicas das diferentes espécies animais; mas no ser humano cada um desses fatores está sempre marcado pela Cultura, por elementos culturais; a Cultura que é fruto da convivência comunitária de seres humanos desde os primórdios em que se possa referir a “ser humano”. A conceituação de “ser humano” sempre implica em “comunidade”, de onde provém “a cultura”. Associada a ambos está a “linguagem”.
     Assim, a linguagem é a principal ferramenta, mas também pode ser obstáculo ao Conhecimento. Sua capacidade, suas possibilidades são também seus limites.
     Para ilustrar isso podemos lembrar uma passagem de Thomas Kuhn em sua coletânea póstuma “Depois da Estrutura”. Ele, que tinha formação em Física, ao estudar Aristóteles, achou estranho o conceito aristotélico de “movimento”. Em primeiro momento achou que Aristóteles nada entendia de Física. Mas depois ele veio a entender que “movimento” para Aristóteles tinha outro sentido: para ele, por exemplo, a metamorfose na natureza, de larva em borboleta, era um “movimento”. Ou seja, a ideia de movimento englobava também formas de transformação. A partir daí, Kuhn passou a respeitar Aristóteles e esse foi um dos elementos que o levaram a configurar sua ideia de “incomensurabilidade de paradigmas”, na medida em que eles usem diferentes linguagens e métodos.
     Outro aspecto sobre a linguagem diz respeito à importância da metáfora para o Conhecimento. A metáfora permite a passagem de palavras entre diferentes campos do Conhecimento, mas com sentidos associados, não exatamente os mesmos de seu campo de origem. Podemos pensar, por exemplo, nas diversas passagens da palavra “célula” desde sua origem como “pequena cela” quando vista pela primeira vez pelo microscópio por Robert Hooke, que associou o que via a “pequenos cômodos” que chamou então de células. Daí para diante esse termo percorre diversos campos do Conhecimento e mesmo da linguagem coloquial.
     Tendo visto esta introdução a respeito de alguns conceitos básicos para os estudos em Neuro-Humanidades, passemos então a falar da Medicina Narrativa como uma prática interdisciplinar na área da Saúde.
     Ao falarmos de “interdisciplinaridade” devemos entender esse termo. Ele costuma ser estudado com os termos Multidisciplinaridade e Transdisciplinaridade. Multidisciplinaridade é uma associação de disciplinas que segue um modelo que iniciou-se com Aristóteles, embora ele mesmo não usasse esse termo; essa é uma conceituação que surge no século XX, a respeito do Conhecimento no sentido amplo do termo. Na Multidisciplinaridade cada disciplina fica com seu método e sua linguagem, havendo apenas algum contato entre disciplinas. É o modelo tradicional, convencional da maioria das escolas. Já a interdisciplinaridade implica em uma permuta de linguagens e métodos. A transdisciplinaridade não é um degrau acima de multi e interdisciplinaridade. A transdisciplinaridade transversaliza as outras duas formas de associação de disciplinas, de modo que trabalha mais com uma espécie de metalinguagem e de “metamétodo”; na transdisciplinaridade a cultura, ou a culturalidade sempre é levada em consideração.
     Visto isso, afirmar que a Medicina Narrativa é uma área interdisciplinar implica em que permite a permuta de linguagens e métodos entre diferentes áreas do Conhecimento ligadas à saúde. Ao falarmos área da Saúde também podemos ampliar essa designação para saúde/doença, na medida em que ambas têm sua fundamentação de forma mútua, embora não sejam exatamente equivalentes.
    A ideia de saúde/doença surgiu para o ser humano a partir da constituição do próprio “ser humano”, naqueles primórdios já referidos, em que se tem ser humano, linguagem e cultura surgindo associados. Dessa forma, a percepção de “sofrimento e dor” passou a ser algo presente a partir do momento em que se tem “ser humano no mundo”. Pode-se eventualmente alegar que os animais também sofrem; o que é certo. Mas, mesmo esta conceituação vem do ser humano que pensa a esse respeito. Assim a percepção e elaboração de alguma coisa que passa a ser nomeada como “sofrimento ou dor” é algo próprio do ser humano. “Nomear” é algo próprio do ser humano. Assim também a verbalização sobre o binômio saúde/doença.
     Frisamos que sempre ensinamos que “não existem doenças, existem doentes”. Isso significa que doenças são resultado da abstração médica a partir de sinais e sintomas. Sinais e sintomas similares podem significar uma doença em um século e outra doença em outro, porque ambas são construídas a partir do contexto histórico presente de cada uma.
     Assim como o ser humano “nomeia” com sua linguagem verbal, mas também a partir da percepção de outras linguagens, ele discorre verbalmente a respeito dos eventos que o cercam. Usualmente e inicialmente a partir de noções de espaço e de tempo. Sempre o ser humano narra sucessivamente e comparativamente os eventos de sua vida e de sua comunidade desde os tempos primordiais. Assim se constituíram as narrativas. Entre elas, as narrativas das doenças. Talvez, paradoxalmente, as narrativas de doenças tenham precedido as narrativas de saúde, já que na medicina as doenças são abstrações. No entanto, em tempos primordiais as “doenças-narrativas” tinham certos significados dentro do mundo cotidiano dos seres humanos de modo algo diferente da conceituação científica de doença.
     Deixemos este debate para outra oportunidade. Agora comentemos um pouco sobre Medicina Narrativa.
      O termo Medicina Narrativa foi criado pela Profa. Dra. Rita Charon, professora de Medicina na Columbia University em Nova York, no ano 2000. A criação desse termo veio após longa vivência como médica e professora, bem como a partir de contato com área da Literatura, onde fez Doutorado. No ano de 2009 ela teve aprovado o programa de Mestrado em Medicina Narrativa na mesma Universidade.  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Curso: "Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde"


Medicina Narrativa: processo interdisciplinar no cuidado à saúde.

Curso de Extensão

Ementa:

A Medicina Narrativa corresponde a uma abordagem da questão saúde-doença do ponto de vista da narrativa, da história do doente em seu sentido mais amplo, compreendendo não apenas aspectos biológicos, mas também sociais e culturais. Nesse sentido, uma das ferramentas da medicina narrativa é a Literatura, além do estudo da linguagem. Esse processo pode aprimorar a percepção clínica, bem como fornecer mais elementos para a equipe multiprofissional que atua conjuntamente, seja no sentido diagnóstico como terapêutico.

Responsável: Prof. Dr. Afonso Carlos Neves
     Prof. Dr. Afonso Carlos Neves – Professor Afiliado da Disciplina de Neurologia da Unifesp, Coordenador do Setor de Neuro-Humanidades da Disciplina de Neurologia. Mestrado e Doutorado em Neurologia (Unifesp), Pós Doutorado em Neurologia (UCSF) e Doutorado em Historia Social da Ciência (USP).

Público Alvo:
- Todos os interessados que estejam cursando nível superior ou já tenham concluído.
- Disciplina optativa eletiva para alunos da Unifesp.
- Pós-graduandos.

Carga horária: 36 horas, sendo 16 horas presenciais e 20 horas não presenciais para preparação de seminários relativos a trabalhos com textos literários.  

2 Créditos para Pós-Graduação; 2 créditos para alunos da Unifesp.

Horário:
Quintas-feiras, de 04 de maio a 29 de junho de 2017.
Das 12 às 14 horas.
Local: Anfiteatro Lemos Torres.

Programa:
Aula 1 – 04/05
                Fundamentos da Medicina Narrativa I
Aula 2 – 11/05
               Fundamentos da Medicina Narrativa II
Aula 3 – 18/05
               Fundamentos da Medicina Narrativa III
Aula 4 – 25/05
               Linguagens e Discursos
Aula 5 – 01/06
               História da Educação Médica
Aula 6 – 08/06
              Seminários
Aula 7 – 22/06
              Seminários
Aula 8 – 29/06
             Seminários

Bibliografia:

Charon, Rita – Narrative Medicine – Honoring the stories of Illness. Oxford University Press, 2006.
Mehl-Madrona, Lewis – Healing the mind through the power of story. Bear & Company.
Mehl-Madrona, Lewis – The Use of History and Story in the Healing Process. Bear & Company.
Outras referências a serem citadas em sala de aula referentes a textos literários dos escritores Moacyr Scliar, Mário de Andrade, Lima Barreto, Thomas Mann, A. J. Cronin e outros.


Inscrições em:
https://www.unifesp.br/reitoria/proex/acoes/cursos-de-extensao-e-eventos/cursos-e-eventos

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Multi, Inter, Transdisciplinaridade – Parte 2


As palavras Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade passaram a circular em ambientes relacionados a estudos do Conhecimento e da Educação principalmente a partir da década de 1990. Tais termos passaram a ser muito utilizados na linguagem cotidiana desses e de outros campos de estudo, de tal modo que acompanharam até mesmo certo modismo nos discursos em torno desses temas e de temas similares.
Cada palavra carrega diversos elementos além do seu significado básico inicial. Esses elementos podem ser tanto racionais quanto emotivos e podem despertar atração ou repulsão dependendo do contexto em que o termo esteja sendo usado, ou seja, dependendo de espaço, tempo e do agrupamento humano que faça uso do termo específico.
Talvez por conta da força do próprio prefixo “multi”, que sinaliza algo próspero, crescente, positivo, progressivo, o termo “multidisciplinar” frequentemente é usado para além de seu significado original. Não queremos dizer com isso que esse uso esteja errado. As palavras têm diversos sinônimos e significados dependendo do ambiente em que estejam sendo usadas. No entanto, tem havido algum engano no uso da palavra “multidisciplinar” por se estar querendo dizer alguma coisa que talvez tenha melhores palavras para descrever, como, por exemplo, “interdisciplinaridade”, ou eventualmente pela descoberta da palavra “multidisciplinaridade” por alguém que tenha certo encanto pela sonoridade e pela aparente praticidade que a palavra pode proporcionar, ou ainda por ser uma palavra que possa engrandecer a atividade ou a pessoa que a aplique, bem como por certa sensação de modernidade ou contemporaneidade ao pronunciar ou escrever “multidisciplinaridade”.
Como multidisciplinaridade reúne o prefixo “multi”, de origem grega e a raiz “disciplina”, de origem latina, os franceses preferem o termo “pluridisciplinaridade”. Na verdade, ambos dizem respeito à mesma coisa.
Com certa frequência alguém diz que “agora aqui já somos multidisciplinares”, ou “agora adotamos a multidisciplinaridade”. Isso pode ser verdade se o local em questão tiver sido apenas “unidisciplinar” anteriormente. Nem sempre é esse o caso.
Embora o uso desse termo tenha começado na segunda metade do século XX, podemos dizer que a multidisciplinaridade tenha começado com Aristóteles. Devemos frisar que o próprio Aristóteles não tinha como se considerar “multidisciplinar”, haja vista ser esse um conceito de nossos tempos. No entanto, na cultura ocidental, ele foi o primeiro que estabeleceu de maneira mais regularizada, ou organizada, a divisão de áreas do Conhecimento. Certamente ele foi precedido por outros que também tinham certa divisão de campos do Conhecimento. Se formos nos reportar aos primórdios mais longevos da humanidade a respeito de quando teria se iniciado a divisão de Conhecimento, iremos até o Período Paleolítico da Pré-História, na assim chamada cultura de “caçador-coletor”, onda já havia uma divisão de trabalho e, portanto de conhecimento entre dois grupos: homens caçadores de animais, mulheres coletoras de materiais vegetais diversos. Essa divisão de trabalho propiciou um gradual aprimoramento de cada um desses grupos na sua própria área de conhecimento, de modo que a partir de certo ponto passaram a ter noção de refinados e detalhados fatores de suas áreas respectivas, incluindo até determinados “segredos” da arte de cada uma dessas áreas. Isso certamente acabou levando a um processo de “iniciação” das pessoas mais jovens, com etapas de aquisição de conhecimento desde a infância e a partir de certa idade com “rituais de passagem”, indicando a possibilidade de prosseguir na aquisição de conhecimento e sua aplicação prática.
Se assim era na Pré-História, mais refinado passa a ser quando o Conhecimento se torna sistematizado e organizado, principalmente a partir dos filósofos, quando falamos de Ocidente, e, de certa forma, culminando com Aristóteles como um organizador algo formal desse Conhecimento. Evidentemente o processo não para por aí. Mas, entre os filósofos anteriores a Aristóteles e ele próprio, podemos propor que ele tenha sido o primeiro a relacionar as áreas do Conhecimento, de modo que sejam similares a aquilo que denominamos “multidisciplinaridade”. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Multi, Inter, Transdisciplinaridade – parte 1


Os termos multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade apareceram no século XX, a partir de reflexões e discussões em torno de conhecimento, educação, estudos, pesquisas, etc. Portanto, podem também ser vistos como ligados à Epistemologia.
Epistemologia é o “estudo do Conhecimento”. Não diz respeito ao conhecimento em si das coisas vistas pelas diversas áreas do conhecimento, também chamadas de “disciplinas”.
O estudo do Conhecimento procura entender como ele se processa, como ele se organiza, quais suas correlações com outros campos de estudo e assim por diante. Sendo assim, esse estudo do Conhecimento tem intersecção com várias áreas.
Quando se fala do processo ou do processamento do Conhecimento hoje em dia, logo se pensa em Neurociências. Pensa-se em como o sistema nervoso “produz” conhecimento, ou processa “conhecimento”. Muitas vezes acha-se que isso basta para entender o Conhecimento, mas não é assim.
O estudo neurocientífico do Conhecimento é importante, pode ser tido como necessário, mas não é suficiente para todo o entendimento a respeito do Conhecimento. Pode-se até diferenciar “processo” de “processamento” do Conhecimento. O “processamento” é mais adequado ao aspecto neurobiológico da formação e produção de Conhecimento. O “processo” já diz respeito a outros aspectos correlacionados a fatores culturais, sociais, filosóficos e seus desdobramentos e correlações.
Também podemos lembrar que conhecimento, educação, estudos, pesquisas, e outros fatores têm similaridades, mas não são sinônimos. No entanto, a abordagem a partir de multi, inter, transdisciplinaridade pode servir a uma compreensão mais ampla a respeito desses temas.
O entendimento de uma área do conhecimento como sendo uma “disciplina” ocorre mais a partir do século XX. Esse nome específico liga-se a uma série de noções que foram, aos poucos, substituindo a antiga ideia de “cátedra” para uma área do conhecimento ou para uma seção específica dentro da universidade, ou ainda para o que se configurou a partir da segunda metade do século XIX e consagrou-se no século XX como “especialidade” em certos campos.
A preocupação dos estudiosos de como se correlacionam as diversas disciplinas iniciou-se na década de 1920, mas ganhou mais corpo a partir da década de 1960. Cada um desses momentos tem suas peculiaridades históricas. Nas duas últimas décadas do século XX o discurso a respeito dos três temas passou a ser mais frequente, com publicações, debates, e polêmicas. O século XXI se presta mais a uma melhor circulação e aplicação de tais termos.
Deve-se frisar que as três palavras não caracterizam três degraus de uma mesma escada. Cada uma das três instâncias têm aspectos que as particularizam, de modo que também não se fala em alguma coisa que caminha de um nível menor para um nível maior. Também não diz respeito a menor ou maior abrangência. Mas pode-se dizer que são níveis diferentes de abordagem do Conhecimento ou de como as áreas do Conhecimento se articulam.

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre o artigo “Padrão Xangai” do professor José Antonio Segatto e a crise nas universidades


Foi publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, em 18 de Junho de 2015, o artigo do Professor Titular de Sociologia da Unesp José Antonio Segatto intitulado “Padrão Xangai”.
Ele inicia citando o entusiasmo dos meios acadêmicos com o fato de cinco ou seis universidades brasileiras aparecerem nos rankings internacionais listadas entre centenas de melhores universidades no mundo.
Em seguida, observa que pela busca de ascensão nos rankings, as universidades públicas têm procurado adotar as exigências e o padrão para “produção, reprodução, gestão e difusão científicas”, disseminados há décadas pelas universidades americanas e “reciclados” no Oriente, em Xangai, Hong Kong, Jacarta, Seul, Taipé, etc. Esse padrão, com seu clímax nas décadas de 1980 e 1990, baseia-se em “mercantilização do Trabalho intelectual e científico, a competitividade, a produtividade, o empreendedorismo, a objetividade, a racionalidade instrumental e a internacionalização, entre outros elementos”.
Refere então que esse padrão tem sido lentamente adotado, inclusive como contraponto ao corporativismo e fraca produção acadêmica e científica do corpo docente, e como reação do conservadorismo às teorias críticas tidas como ideológicas e especulativas. Considera então que seria o desfecho de um processo de americanização das universidades brasileiras iniciado nos anos 1960.
Assim, conforme o padrão Xangai, o trabalho intelectual e científico passaria a buscar a maximização de resultados, o índice de desempenhos (performance), indicadores de produtividade e difusão (impacto). Desse modo, a tríade tradicional acadêmica – ensino, pesquisa e extensão – foi sendo substituído por competividade, produtividade, empreendedorismo, internacionalização.
Podemos acrescentar às palavras do professor Segatto que o estudioso canadense Bill Readings em sua obra “The University in Ruins” (1996) já apontava, de modo similar, essa transformação da Universidade. Da Universidade Moderna, cujo padrão teria sido a Universidade de Berlim, fundada por Wilhelm von Humbolt, em 1810, à Universidade Pós-Moderna, ou como prefere Readings, “Pós-Histórica”. Assim, a universidade moderna, que teria consagrado ensino, pesquisa, etc. (que ele também chama de Universidade da Cultura), ao se tornar pós-moderna teria passado a valorizar a excelência, os resultados, a eficiência (que ele também chama de Universidade da Excelência). Nesse processo de transformação ele considera que ocorreu um esvaziamento do sentido das universidades, passando a terem como finalidade o lucro e fatores similares, diferentemente da formação do indivíduo em si.
Voltemos ao texto do professor Segatto. Pelos fatores citados, a produção, transmissão e aplicação do trabalho científico mudaram de rumo. Desse modo ele cita: 1 – mercantilização da Ciência, com o cientista transformado em businessman, voltado para patentes e copyrights; 2 – eficiência dos docentes e pesquisadores medida por planilhas de controle de resultados e atividades; 3 – relevância dada à publicação de artigos breves e coletivos (segundo ele, milagre de multiplicação de autores) em revistas, coletâneas, anais de congresso, em vez de livros ou pesquisas de maior maturação; 4 – oficialização do inglês para publicações nacionais e internacionais, inclusive pagas; 5 – incentivo à captação de recursos por agências externas à universidade, valendo a pesquisa quanto maior o recurso obtido; 6 – estímulo à hiperespecialização e investigação de micro-objetos e fenômenos que possam ter investigação rápida, devido à exigência de produtividade; instala-se a “compartimentalização disciplinar, o minimalismo explicativo, o efêmero e o descartável”.
O professor Segatto considera então que os volumes de recursos passam a ser colossais, com aumento exponencial da produção científica; são editadas em torno de cinco mil revistas científicas no Brasil. Ele pergunta se esse aumento de investimento e produtividade gera o devido retorno em inovação e relevância científica. Cita então a revista Nature, que em 2014 mencionou que “o desempenho qualitativo é inversamente proporcional aos vultosos gastos e ao abundante quantum gerado”.
O professor conclui então que a produção científica e intelectual passou a estar ligada à autorreprodução de nichos corporativos, e não voltada para os interesses da sociedade, porém para “coletividades ou confrarias de interesses e afinidades particulares”. Ele então pergunta se é esse o padrão científico que queremos para as nossas universidades.
Pode ser que não se concorde com todos os pontos citados pelo professor, como por exemplo, o uso do inglês ou a internacionalização. Mas suas considerações servem para uma reflexão a respeito do que se vê atualmente com uma universidade aparente, desses padrões, e a universidade real que precisa formar indivíduos para a sociedade. O artigo de 2014 da Nature revela a constatação de que o Período Pós-Moderno da História, onde predominava o pragmatismo, a eficiência e os resultados, já passou ou está passando. Vivemos em uma transição ao Pós-pós-moderno, que ainda não sabemos exatamente como será, mas que certamente não se pauta mais pelos paradigmas da segunda metade do século XX. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Alunos Aprovados na Disciplina Eletiva Optativa: “A Crise das Universidades” – 2014.


Alunos de Graduação da Unifesp:

FONOAUDIOLOGIA

Amanda Santiago Gouveia
Andrea Sayuri Matsunaga
Anna Flávia Mendonça Siciliano
Bianca Maria Gois Moreira Santos
Bianca Rodrigues Pinto dos Reis
Bruna Simões da Silva
Camila Cristine Ferreira
Carolina de Campos Salvato
Clarice Tosseto
Débora Pereira da Silva
Fernanda Alves
Heloisa Gonçalves da Silveira
Isabela Rodrigues Magalhães
Isis Franci Cavalcanti de Noronha
Joana Santos Yamashiro
Josimoni Aparecida de Oliveira
Larissa Freitas Pereira Marques da Silva
Leila Freitas
Mariane de Souza
Monize Menon
Pâmela Fukazawa
Sara Regina Marini Rombe

MEDICINA

Aline Villalobo Correia
Cinthia Moreno Garcia
Cristiane Sanches de Oliveira Freitas
Fernando Veríssimo de Carvalho
Henrique Baldin
Nayara Tamires Marques de Freitas
Talita Silva Pinto
Telma Monteiro Benoliel Chantre
Victor Koji Nakamura
William Vaz de Souza 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Curso: "A Crise das Universidades"

Disciplina de Neurologia - EPM-Unifesp – Setor de Neuro-Humanidades – 2014.

Curso: "A Crise das Universidades"

Responsável: Prof. Dr. Afonso Carlos Neves

Ementa:

A instituição “Universidade” existe há séculos, integrada ao contexto social, cultural, político e econômico, inicialmente do Ocidente e depois de todo o mundo. A Universidade Moderna e Pós-Moderna teve certa evolução e progresso acompanhando fatores desses períodos. No século 21, universidades de todo o mundo passaram a vivenciar tipos diversos de crises, que acompanharam e acompanham ainda outras crises presentes na sociedade. Neste curso pretendemos abordar essas variadas questões, principalmente a partir de uma perspectiva histórica.

Público alvo: pós-graduandos, profissionais e estudantes de nível superior.

Para a pós-graduação: 2 créditos.

Como disciplina optativa de graduação da Unifesp: 2 créditos.

Duração: 36 horas, sendo 16 presenciais e 20 não presenciais na preparação de seminários e respostas a questões levantadas.  

Local: Anfiteatro Clóvis Salgado

Data e hora: das 12 às 14 horas. 8 aulas, nas segundas feiras, de 6 de outubro até 24 de novembro de 2014.

Inscrição pelo link: http://phpu.unifesp.br/acad/siex/index.htm

Aulas:

1 – História das Universidades – parte 1 – 6/10/2014
2 – História das Universidades – parte 2 – 13/10
3 – Universidade Moderna – 20/10
4 – Universidade Pós-Moderna e Pós-pós-moderna – 27/10
5 – A questão do Conhecimento – 03/11
6 – Seminários 1 – 10/11
7 – Seminários 2 – 17/11
8 – Seminários 3 – 24/11
  
Bibliografia:

Hannam, James – The Genesis of Science. Regnery Publishing, Inc. , 2011.
Haskins, Homer Charles – The Rising of Universities. Cornell University Press, 1923.
Pedersen, Olaf – The First Universities. Cambridge University Press, 2009 (1997).
Readings, Bill – The University in Ruins. Harvard University Press, 1996.
Riat, Robert S. – Life in the Medieval University. Cambridge University Press (1912, 1918) 2007.
Trivium e Quadrivium – As artes liberais na Idade Média. Coordenação: Lênia Márcia Mongelli. Editora Íbis, 1999.
A History of the University in Europe. Cambridge University. Vários autores, de 2003 a 2011. 
Kant,  Immanuel - O Conflito das Faculdades. Edições 70, 1993 (1794). 
Kuhn, Thomas S. - A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva, 2001 (1962,70).
Kuhn, Thomas S. - O Caminho desde a Estrutura. Editora Unesp, 2000.
Morin, Edgar - La Méthode 4 - Les Idées. Éditions du Seuil, 1991. 
Bachelard. Gaston - O Novo Espírito Científico. Biblioteca Tempo Universitário, 2000.
Feyerabend, Paul - Contra o Método. Editora Unesp, (1987) 2003.