quarta-feira, 13 de abril de 2016

Multi, Inter, Transdisciplinaridade – Parte 2


As palavras Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade passaram a circular em ambientes relacionados a estudos do Conhecimento e da Educação principalmente a partir da década de 1990. Tais termos passaram a ser muito utilizados na linguagem cotidiana desses e de outros campos de estudo, de tal modo que acompanharam até mesmo certo modismo nos discursos em torno desses temas e de temas similares.
Cada palavra carrega diversos elementos além do seu significado básico inicial. Esses elementos podem ser tanto racionais quanto emotivos e podem despertar atração ou repulsão dependendo do contexto em que o termo esteja sendo usado, ou seja, dependendo de espaço, tempo e do agrupamento humano que faça uso do termo específico.
Talvez por conta da força do próprio prefixo “multi”, que sinaliza algo próspero, crescente, positivo, progressivo, o termo “multidisciplinar” frequentemente é usado para além de seu significado original. Não queremos dizer com isso que esse uso esteja errado. As palavras têm diversos sinônimos e significados dependendo do ambiente em que estejam sendo usadas. No entanto, tem havido algum engano no uso da palavra “multidisciplinar” por se estar querendo dizer alguma coisa que talvez tenha melhores palavras para descrever, como, por exemplo, “interdisciplinaridade”, ou eventualmente pela descoberta da palavra “multidisciplinaridade” por alguém que tenha certo encanto pela sonoridade e pela aparente praticidade que a palavra pode proporcionar, ou ainda por ser uma palavra que possa engrandecer a atividade ou a pessoa que a aplique, bem como por certa sensação de modernidade ou contemporaneidade ao pronunciar ou escrever “multidisciplinaridade”.
Como multidisciplinaridade reúne o prefixo “multi”, de origem grega e a raiz “disciplina”, de origem latina, os franceses preferem o termo “pluridisciplinaridade”. Na verdade, ambos dizem respeito à mesma coisa.
Com certa frequência alguém diz que “agora aqui já somos multidisciplinares”, ou “agora adotamos a multidisciplinaridade”. Isso pode ser verdade se o local em questão tiver sido apenas “unidisciplinar” anteriormente. Nem sempre é esse o caso.
Embora o uso desse termo tenha começado na segunda metade do século XX, podemos dizer que a multidisciplinaridade tenha começado com Aristóteles. Devemos frisar que o próprio Aristóteles não tinha como se considerar “multidisciplinar”, haja vista ser esse um conceito de nossos tempos. No entanto, na cultura ocidental, ele foi o primeiro que estabeleceu de maneira mais regularizada, ou organizada, a divisão de áreas do Conhecimento. Certamente ele foi precedido por outros que também tinham certa divisão de campos do Conhecimento. Se formos nos reportar aos primórdios mais longevos da humanidade a respeito de quando teria se iniciado a divisão de Conhecimento, iremos até o Período Paleolítico da Pré-História, na assim chamada cultura de “caçador-coletor”, onda já havia uma divisão de trabalho e, portanto de conhecimento entre dois grupos: homens caçadores de animais, mulheres coletoras de materiais vegetais diversos. Essa divisão de trabalho propiciou um gradual aprimoramento de cada um desses grupos na sua própria área de conhecimento, de modo que a partir de certo ponto passaram a ter noção de refinados e detalhados fatores de suas áreas respectivas, incluindo até determinados “segredos” da arte de cada uma dessas áreas. Isso certamente acabou levando a um processo de “iniciação” das pessoas mais jovens, com etapas de aquisição de conhecimento desde a infância e a partir de certa idade com “rituais de passagem”, indicando a possibilidade de prosseguir na aquisição de conhecimento e sua aplicação prática.
Se assim era na Pré-História, mais refinado passa a ser quando o Conhecimento se torna sistematizado e organizado, principalmente a partir dos filósofos, quando falamos de Ocidente, e, de certa forma, culminando com Aristóteles como um organizador algo formal desse Conhecimento. Evidentemente o processo não para por aí. Mas, entre os filósofos anteriores a Aristóteles e ele próprio, podemos propor que ele tenha sido o primeiro a relacionar as áreas do Conhecimento, de modo que sejam similares a aquilo que denominamos “multidisciplinaridade”. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Multi, Inter, Transdisciplinaridade – parte 1


Os termos multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade apareceram no século XX, a partir de reflexões e discussões em torno de conhecimento, educação, estudos, pesquisas, etc. Portanto, podem também ser vistos como ligados à Epistemologia.
Epistemologia é o “estudo do Conhecimento”. Não diz respeito ao conhecimento em si das coisas vistas pelas diversas áreas do conhecimento, também chamadas de “disciplinas”.
O estudo do Conhecimento procura entender como ele se processa, como ele se organiza, quais suas correlações com outros campos de estudo e assim por diante. Sendo assim, esse estudo do Conhecimento tem intersecção com várias áreas.
Quando se fala do processo ou do processamento do Conhecimento hoje em dia, logo se pensa em Neurociências. Pensa-se em como o sistema nervoso “produz” conhecimento, ou processa “conhecimento”. Muitas vezes acha-se que isso basta para entender o Conhecimento, mas não é assim.
O estudo neurocientífico do Conhecimento é importante, pode ser tido como necessário, mas não é suficiente para todo o entendimento a respeito do Conhecimento. Pode-se até diferenciar “processo” de “processamento” do Conhecimento. O “processamento” é mais adequado ao aspecto neurobiológico da formação e produção de Conhecimento. O “processo” já diz respeito a outros aspectos correlacionados a fatores culturais, sociais, filosóficos e seus desdobramentos e correlações.
Também podemos lembrar que conhecimento, educação, estudos, pesquisas, e outros fatores têm similaridades, mas não são sinônimos. No entanto, a abordagem a partir de multi, inter, transdisciplinaridade pode servir a uma compreensão mais ampla a respeito desses temas.
O entendimento de uma área do conhecimento como sendo uma “disciplina” ocorre mais a partir do século XX. Esse nome específico liga-se a uma série de noções que foram, aos poucos, substituindo a antiga ideia de “cátedra” para uma área do conhecimento ou para uma seção específica dentro da universidade, ou ainda para o que se configurou a partir da segunda metade do século XIX e consagrou-se no século XX como “especialidade” em certos campos.
A preocupação dos estudiosos de como se correlacionam as diversas disciplinas iniciou-se na década de 1920, mas ganhou mais corpo a partir da década de 1960. Cada um desses momentos tem suas peculiaridades históricas. Nas duas últimas décadas do século XX o discurso a respeito dos três temas passou a ser mais frequente, com publicações, debates, e polêmicas. O século XXI se presta mais a uma melhor circulação e aplicação de tais termos.
Deve-se frisar que as três palavras não caracterizam três degraus de uma mesma escada. Cada uma das três instâncias têm aspectos que as particularizam, de modo que também não se fala em alguma coisa que caminha de um nível menor para um nível maior. Também não diz respeito a menor ou maior abrangência. Mas pode-se dizer que são níveis diferentes de abordagem do Conhecimento ou de como as áreas do Conhecimento se articulam.

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre o artigo “Padrão Xangai” do professor José Antonio Segatto e a crise nas universidades


Foi publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, em 18 de Junho de 2015, o artigo do Professor Titular de Sociologia da Unesp José Antonio Segatto intitulado “Padrão Xangai”.
Ele inicia citando o entusiasmo dos meios acadêmicos com o fato de cinco ou seis universidades brasileiras aparecerem nos rankings internacionais listadas entre centenas de melhores universidades no mundo.
Em seguida, observa que pela busca de ascensão nos rankings, as universidades públicas têm procurado adotar as exigências e o padrão para “produção, reprodução, gestão e difusão científicas”, disseminados há décadas pelas universidades americanas e “reciclados” no Oriente, em Xangai, Hong Kong, Jacarta, Seul, Taipé, etc. Esse padrão, com seu clímax nas décadas de 1980 e 1990, baseia-se em “mercantilização do Trabalho intelectual e científico, a competitividade, a produtividade, o empreendedorismo, a objetividade, a racionalidade instrumental e a internacionalização, entre outros elementos”.
Refere então que esse padrão tem sido lentamente adotado, inclusive como contraponto ao corporativismo e fraca produção acadêmica e científica do corpo docente, e como reação do conservadorismo às teorias críticas tidas como ideológicas e especulativas. Considera então que seria o desfecho de um processo de americanização das universidades brasileiras iniciado nos anos 1960.
Assim, conforme o padrão Xangai, o trabalho intelectual e científico passaria a buscar a maximização de resultados, o índice de desempenhos (performance), indicadores de produtividade e difusão (impacto). Desse modo, a tríade tradicional acadêmica – ensino, pesquisa e extensão – foi sendo substituído por competividade, produtividade, empreendedorismo, internacionalização.
Podemos acrescentar às palavras do professor Segatto que o estudioso canadense Bill Readings em sua obra “The University in Ruins” (1996) já apontava, de modo similar, essa transformação da Universidade. Da Universidade Moderna, cujo padrão teria sido a Universidade de Berlim, fundada por Wilhelm von Humbolt, em 1810, à Universidade Pós-Moderna, ou como prefere Readings, “Pós-Histórica”. Assim, a universidade moderna, que teria consagrado ensino, pesquisa, etc. (que ele também chama de Universidade da Cultura), ao se tornar pós-moderna teria passado a valorizar a excelência, os resultados, a eficiência (que ele também chama de Universidade da Excelência). Nesse processo de transformação ele considera que ocorreu um esvaziamento do sentido das universidades, passando a terem como finalidade o lucro e fatores similares, diferentemente da formação do indivíduo em si.
Voltemos ao texto do professor Segatto. Pelos fatores citados, a produção, transmissão e aplicação do trabalho científico mudaram de rumo. Desse modo ele cita: 1 – mercantilização da Ciência, com o cientista transformado em businessman, voltado para patentes e copyrights; 2 – eficiência dos docentes e pesquisadores medida por planilhas de controle de resultados e atividades; 3 – relevância dada à publicação de artigos breves e coletivos (segundo ele, milagre de multiplicação de autores) em revistas, coletâneas, anais de congresso, em vez de livros ou pesquisas de maior maturação; 4 – oficialização do inglês para publicações nacionais e internacionais, inclusive pagas; 5 – incentivo à captação de recursos por agências externas à universidade, valendo a pesquisa quanto maior o recurso obtido; 6 – estímulo à hiperespecialização e investigação de micro-objetos e fenômenos que possam ter investigação rápida, devido à exigência de produtividade; instala-se a “compartimentalização disciplinar, o minimalismo explicativo, o efêmero e o descartável”.
O professor Segatto considera então que os volumes de recursos passam a ser colossais, com aumento exponencial da produção científica; são editadas em torno de cinco mil revistas científicas no Brasil. Ele pergunta se esse aumento de investimento e produtividade gera o devido retorno em inovação e relevância científica. Cita então a revista Nature, que em 2014 mencionou que “o desempenho qualitativo é inversamente proporcional aos vultosos gastos e ao abundante quantum gerado”.
O professor conclui então que a produção científica e intelectual passou a estar ligada à autorreprodução de nichos corporativos, e não voltada para os interesses da sociedade, porém para “coletividades ou confrarias de interesses e afinidades particulares”. Ele então pergunta se é esse o padrão científico que queremos para as nossas universidades.
Pode ser que não se concorde com todos os pontos citados pelo professor, como por exemplo, o uso do inglês ou a internacionalização. Mas suas considerações servem para uma reflexão a respeito do que se vê atualmente com uma universidade aparente, desses padrões, e a universidade real que precisa formar indivíduos para a sociedade. O artigo de 2014 da Nature revela a constatação de que o Período Pós-Moderno da História, onde predominava o pragmatismo, a eficiência e os resultados, já passou ou está passando. Vivemos em uma transição ao Pós-pós-moderno, que ainda não sabemos exatamente como será, mas que certamente não se pauta mais pelos paradigmas da segunda metade do século XX. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Alunos Aprovados na Disciplina Eletiva Optativa: “A Crise das Universidades” – 2014.


Alunos de Graduação da Unifesp:

FONOAUDIOLOGIA

Amanda Santiago Gouveia
Andrea Sayuri Matsunaga
Anna Flávia Mendonça Siciliano
Bianca Maria Gois Moreira Santos
Bianca Rodrigues Pinto dos Reis
Bruna Simões da Silva
Camila Cristine Ferreira
Carolina de Campos Salvato
Clarice Tosseto
Débora Pereira da Silva
Fernanda Alves
Heloisa Gonçalves da Silveira
Isabela Rodrigues Magalhães
Isis Franci Cavalcanti de Noronha
Joana Santos Yamashiro
Josimoni Aparecida de Oliveira
Larissa Freitas Pereira Marques da Silva
Leila Freitas
Mariane de Souza
Monize Menon
Pâmela Fukazawa
Sara Regina Marini Rombe

MEDICINA

Aline Villalobo Correia
Cinthia Moreno Garcia
Cristiane Sanches de Oliveira Freitas
Fernando Veríssimo de Carvalho
Henrique Baldin
Nayara Tamires Marques de Freitas
Talita Silva Pinto
Telma Monteiro Benoliel Chantre
Victor Koji Nakamura
William Vaz de Souza 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Curso: "A Crise das Universidades"

Disciplina de Neurologia - EPM-Unifesp – Setor de Neuro-Humanidades – 2014.

Curso: "A Crise das Universidades"

Responsável: Prof. Dr. Afonso Carlos Neves

Ementa:

A instituição “Universidade” existe há séculos, integrada ao contexto social, cultural, político e econômico, inicialmente do Ocidente e depois de todo o mundo. A Universidade Moderna e Pós-Moderna teve certa evolução e progresso acompanhando fatores desses períodos. No século 21, universidades de todo o mundo passaram a vivenciar tipos diversos de crises, que acompanharam e acompanham ainda outras crises presentes na sociedade. Neste curso pretendemos abordar essas variadas questões, principalmente a partir de uma perspectiva histórica.

Público alvo: pós-graduandos, profissionais e estudantes de nível superior.

Para a pós-graduação: 2 créditos.

Como disciplina optativa de graduação da Unifesp: 2 créditos.

Duração: 36 horas, sendo 16 presenciais e 20 não presenciais na preparação de seminários e respostas a questões levantadas.  

Local: Anfiteatro Clóvis Salgado

Data e hora: das 12 às 14 horas. 8 aulas, nas segundas feiras, de 6 de outubro até 24 de novembro de 2014.

Inscrição pelo link: http://phpu.unifesp.br/acad/siex/index.htm

Aulas:

1 – História das Universidades – parte 1 – 6/10/2014
2 – História das Universidades – parte 2 – 13/10
3 – Universidade Moderna – 20/10
4 – Universidade Pós-Moderna e Pós-pós-moderna – 27/10
5 – A questão do Conhecimento – 03/11
6 – Seminários 1 – 10/11
7 – Seminários 2 – 17/11
8 – Seminários 3 – 24/11
  
Bibliografia:

Hannam, James – The Genesis of Science. Regnery Publishing, Inc. , 2011.
Haskins, Homer Charles – The Rising of Universities. Cornell University Press, 1923.
Pedersen, Olaf – The First Universities. Cambridge University Press, 2009 (1997).
Readings, Bill – The University in Ruins. Harvard University Press, 1996.
Riat, Robert S. – Life in the Medieval University. Cambridge University Press (1912, 1918) 2007.
Trivium e Quadrivium – As artes liberais na Idade Média. Coordenação: Lênia Márcia Mongelli. Editora Íbis, 1999.
A History of the University in Europe. Cambridge University. Vários autores, de 2003 a 2011. 
Kant,  Immanuel - O Conflito das Faculdades. Edições 70, 1993 (1794). 
Kuhn, Thomas S. - A Estrutura das Revoluções Científicas. Editora Perspectiva, 2001 (1962,70).
Kuhn, Thomas S. - O Caminho desde a Estrutura. Editora Unesp, 2000.
Morin, Edgar - La Méthode 4 - Les Idées. Éditions du Seuil, 1991. 
Bachelard. Gaston - O Novo Espírito Científico. Biblioteca Tempo Universitário, 2000.
Feyerabend, Paul - Contra o Método. Editora Unesp, (1987) 2003.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

7ª aula do Curso Abordagens do Conhecimento: "Estudos de Caso – Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade"


O que se chama de “estudo de caso” pode ter vários sentidos.
Mais comumente, na área da saúde, ao se falar em “estudo de caso” costuma-se dizer respeito a uma apresentação e discussão de um caso clínico, ou ainda eventualmente determinada pesquisa científica sobre um caso clínico.
No entanto, fora do campo da saúde e menos frequentemente também nesse campo são usados outros estudos de caso. Assim, podemos ter:

1 – Estudo de caso clínico: apresentação, discussão, pesquisa.
2 - Pesquisa por estudo de caso por método qualitativo do tipo “grounded theory”.
Este é um método onde a formulação de uma hipótese ocorre apenas após a coleta de dados e subsequente determinação de categorias que aparecem no transcorrer dessa coleta.
3 - Case Study (conforme John F. Kennedy School) – busca de resolução de problemas através do exercício de tomadas de decisão nos campos político, social e econômico.
4 - Pesquisas e levantamentos variados sobre “um caso”.
5 - Cases exemplos para discussão em aula.
6 - Etc., etc., (‘causos’) – abre-se o termo “estudo de caso” para discursos, narrativas ou contextos os mais variados.

Procuramos construir um formato de ‘estudo de caso’ que caracterizamos como ‘intertransdisciplinar’, de modo que permita um exercício que vá além das barreiras multidisciplinares do conhecimento.
A Escola J. F. Kennedy de Harvard trabalha com alguns critérios para estudo de caso:
-          Situação real.
-          Decisão específica que precisa ser feita por um gerente/administrador.
-          Avaliar pressões e considerações, informações incompletas e contraditórias. Ou seja, não desprezar esses fatores, mas, pelo contrário, torná-los parte do estudo.
-          Quem é o tomador de decisão.
-          Quais seus objetivos.
-          Quais os atores e seus objetivos.
-          Quais os fatores-chave.
-          Quais fatores favoráveis e desfavoráveis
-          Quais as linhas de ação
-          Prováveis consequências de cada ação
-          Desenvolver argumentos
-          Não temer errar ou ser desafiado

A partir daí formulamos os seguintes itens no estudo de caso "intertransdisciplinar":

1 - Objetivo ou objetivos
                - Qual o tema aparente.
                - Se há temas não aparentes.
                - níveis de realidade e dilemas.
2                   - Quais os atores e intenções.
3                   - Quais ferramentas e obstáculos; 
                  dificuldades/facilidades.
4                   - Quais vínculos:
     - entre atores, fatores, objetivos.
5                    5  - Quais disciplinas/instituições; qual o cenário.
6                     – argumentações; releituras.
      7 -  Linhas de ação/caminhos.
      8 -   Importa mais o exercício do que a decisão final. 
              Não há resposta certa.

Mesmo que o professor conheça uma solução ou uma resposta mais adequada para o caso, não interessa essa “resposta certa”, mas importa mais a discussão em si e os caminhos apontados pelo grupo interdisciplinar que faça a discussão. Se a discussão será mais especificamente interdisciplinar ou se terá também derivações transdisciplinares vai depender do próprio grupo. Como diz o Dr. Patrick Paul, a transdisciplinaridade implica em “subjetividade” e “cultura”, além de dar espaço à complexidade, níveis de realidade e paradoxos.  



domingo, 6 de outubro de 2013

5ª aula do Curso Abordagens do Conhecimento:"Paradigmas e Complexidade".

Prof. Dr. Afonso Carlos Neves
 Paradigma é um termo que significa “modelo” e que há milênios tem sido usado com esse sentido. Após a publicação de Thomas S. Kuhn (1922-1996) intitulada “A Estrutura das Revoluções Científicas” (1962- posfácio de 1970), a palavra “paradigma”, inicialmente restrita ao contexto científico, aos poucos passou a ser usada nos mais diversos contextos, com um significado similar ao estabelecido por Kuhn.
Thomas Kuhn era físico por formação. A partir de seu contato com o ambiente de Ciências Humanas ficou intrigado com as diferenças de métodos entre essa área e as Ciências Exatas, de modo que passou a se interessar em aprofundar estudos a respeito de História da Ciência. Com esse estudo, concluiu que os processos históricos em Ciência não ocorrem por uma mera cumulação de inventos e descobertas, mas antes por uma sucessão de paradigmas, sucessão essa que pode tomar um caráter “revolucionário” no sentido da mudança carregada por isso.
Assim Kuhn expressa seu conceito de paradigma científico:
“Considero paradigmas as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”.
Observamos que os paradigmas são limitados a um determinado tempo e a uma determinada comunidade de praticantes de uma ciência. Devemos assinalar o aspecto do paradigma não fornecer apenas soluções dentro de um modelo, mas também fornecer os problemas. Assim, só é possível “enxergar” o problema, “detectar” o problema sob as condições impostas pelo paradigma. Sem essas condições, pode-se dizer que tal problema “não existe”.
Kuhn compara o paradigma a um jogo de quebra-cabeça: só são colocadas no quebra-cabeça as peças já pré-determinadas para ele. Uma peça diferente será prontamente rejeitada, antes de se tentar “encaixar” entre as outras.
Assim também o paradigma ou modelo científico. Só se pode fazer perguntas (problemas) dentro do modelo. Só se pode fornecer respostas (soluções) dentro do modelo.
Por algum tempo, o paradigma dá conta das perguntas. Kuhn chama esse período de um período de “ciência normal”. Nessa fase, apenas se repetem os métodos determinados pelo paradigma. Não há questionamentos.
Mas chega certo momento em que alguém começa a formular perguntas (problemas) que não cabem no quebra-cabeça (modelo). Chega um momento em que o paradigma já não é capaz de responder a todas as perguntas que começam a aparecer ao redor de seu domínio.
O indivíduo que lança tais questionamentos passa a ser considerado excêntrico, louco, de competência duvidosa, “um poeta”, etc.
Surgem conflitos internos ao paradigma que podem estar situados na linguagem ou nos métodos que até então consagraram o paradigma e ao mesmo tempo foram reforçados por ele. O conflito pode ser visível tanto na formulação de problemas quanto na busca/proposta de solução.
Doutrinas e paradigmas
Cada doutrina pode ter um paradigma central além de outros paradigmas associados que compõem a estrutura geral da doutrina científica.
Esses diversos paradigmas podem estar interrelacionados com os paradigmas de outras doutrinas. Por sua vez, as doutrinas configuram disciplinas científicas.
Assim, esses diversos elementos compõem uma rede complexa que abrange os variados campos de Conhecimento e Ciência.
Embora Thomas Kuhn tenha construído sua teoria principalmente sobre Ciências Exatas, podemos estender seu modelo epistemológico às Ciências Biológicas.
Nem sempre o estudioso que ficou consagrado pelo novo paradigma foi o primeiro a aventar tal hipótese.
Um exemplo disso pode ser a conceituação de Hipócrates (460-370 a.C) a respeito do cérebro ser responsável por todas as manifestações mentais e neurológicas em seu texto sobre “a doença sagrada”.
Essa conceituação já havia sido precedida pelo médico pitagórico Alcmeon tempos antes.
No entanto, todos a ligam a Hipócrates, seja por sua forte marca na história da medicina, seja por ter vivido no auge da Cultura Grega, um momento propício à consolidação de figuras como ele. Talvez possamos dizer que Hipócrates estava no Zeitgeist (espírito do tempo) desse momento.

Ignaz Semmelweis (1818-1865) foi o médico austríaco que percebeu uma associação entre a infecção puerperal e a falta de higiene de seus alunos de medicina. Mas sua tentativa de instaurar novos procedimentos na faculdade foi bastante criticada e rejeitada. O paradigma vigente não permitia essa inovação. Semmelweis desafiou as normas de então e não foi bem aceito.
Diferentemente de Semmelweis, Joseph Lister (1827-1912) consagrou-se pela prática da antissepsia.

A teoria microbiana das doenças a partir de Louis Pasteur (1822-1895) tornou-se consagrada de tal forma que se queria encontrar micróbios responsáveis por toda e qualquer doença. É um exemplo de um paradigma que se instalou com grande força nesse momento. Outros estudiosos precederam Pasteur nessas ideias, mas ele estava no Zeitgeist desse momento.
Em geral os paradigmas científicos não se instalam sozinhos. Habitualmente há condições sociais, culturais, políticas, econômicas e outras favoráveis à aceitação de um novo paradigma.

Em torno de 1982, os pesquisadores Barry J. Marshall e J. Robin Warren descobriram o Helicobacter pylori como provável causa de gastrite e úlcera gástrica. Isso ia contra vários paradigmas. Um deles dizia respeito à causa da gastrite ser atribuída principalmente a stress e a certos alimentos, temperos, etc. Outro paradigma dizia respeito à dificuldade da existência de microorganismo em ambiente ácido com o do estômago. Assim, tal proposta seria um novo paradigma que não foi bem aceito inicialmente. Um dos dois pesquisadores chegou a infectar-se com o Helicobacter para comprovar sua hipótese. Em 2005 ambos ganharam o Prêmio Nobel por sua descoberta.

A proposta do príon como uma nova forma patogênica por Stanley Prusiner em 1982 também foi desafiadora e constituiu um novo paradigma na medida em que admitia a possibilidade de proteínas patológicas se multiplicarem e “infectarem”. Em 1997 Prusiner ganhou o Prêmio Nobel, após a comunidade internacional alarmar-se com uma epidemia de casos de Doença da Vaca Louca e a comunidade científica aceitar esse novo paradigma.

E o que dizer-se de “pseudo – paradigmas”?
Na área da saúde pode-se dizer que podem equivaler a doenças ou tratamentos “da moda”.
Assim, por exemplo, há alguns anos a dislexia foi bastante comentada e passou a ser muito freqüentemente suposta. Mas a autora e fonoaudióloga Giselle Massi questiona a doença dislexia em crianças em diversos casos nos quais acha que pode ser apenas uma forma diferente de aquisição da escrita.(livro “A dislexia em questão” de Giselle Massi ).
Outro caso: grande parte de idosos com alterações cognitivas passou a ser diagnosticado como Doença de Alzheimer. No entanto, sabe-se que diversas moléstias podem ter quadro semelhante, o que inclui outras formas de demência, ou mesmo um comprometimento de uma função cognitiva.
Outro caso: Hiperatividade em criança. Qualquer criança mais inquieta passou a ter esse diagnóstico e fazer tratamento para isso. Essa “hiperdiagnose” tem sido bastante reforçada por informações provenientes da mídia em geral.

Complexidade        
Como diz Edgard Morin complexidade é diferente de complicação.
Ela se opõe ao reducionismo, é desigual e incerta (não linear), contempla a organização do ser vivo em vários níveis. Mantém abertas as possibilidades de várias causas poderem estar ligadas a vários efeitos.
Complexidade e método
Edgar Morin recusa uma teoria unitária do Conhecimento por achá-la simplificadora e que esconde as dificuldades do saber, na medida em que faz recortes para se configurar. Ele comenta que hoje se precisa de um método que, em vez de esconder, detecte as ligações, as imbricações. Assim, deve-se olhar para as ligações e não apenas para os objetos.
Deve-se extinguir as falsas transparências do que é obscuro.
Complexidade e Sistemas: o ser vivo é um sistema, mas não pode ser reduzido ao sistêmico. Assim, a teoria dos sistemas ganha vida quando contempla os vínculos.
Não há ser ou coisa isolada, seja em relação ao meio ou em relação a outros seres.
Eventualmente pode-se perguntar qual a praticidade da Complexidade na área da saúde.
Nós a usamos frequentemente quando se diz que:
- Cada paciente é um paciente.
- Cada caso é um caso.
- Cada pessoa é uma pessoa.
Alguém pode dizer que isso é óbvio.
No entanto, a Complexidade resgata o “óbvio” e mostra que ele também é necessário na rede do Conhecimento.
Paradigmas e disciplinas:
Além da sucessão no tempo dos paradigmas, há também a concomitância de paradigmas em nível multidisciplinar e nível interdisciplinar.
A complexidade transversaliza esses diversos níveis, aceita paradigmas concomitantes.
Assim, a complexidade remete-se ao nível transdisciplinar.
Paradigma – Complexidade:
As noções de paradigma acabaram sendo aplicadas a outros contextos além do especificamente científico. Tal extensão do conceito insere a própria noção de paradigma na noção de complexidade.
Assim, em relação à Complexidade podemos usar a citação:
“Todos os conceitos, nos quais se reúne semióticamente um processo inteiro,escapam à definição: definível é somente aquilo que não tem história” Nietzsche (1887).